Alguns ovos são mais doloridos
em que pese a beleza estampada
em pintados e bem-comportados ninhos
em que pese o romantismo avisceral
dos que os procuram em revistas, telas, poesias:
vermelhos, marrons,amarelos, brancos, limpos.
João Cabral fala de sua esférica ideal
poeta sobre a geometria do ovo,
como se fosse um galo inequívoco,
olha para o branco, a casca, o duro, o novo
mas não dá fé numa lágrima pequenina
cristalina lembrança nos olhos da galinha
de que aquela não fora experiência das mais bem-sucedidas...
Um ovo só é notório para os seus comensais
para um galo, pai seu discutível,
ou para algum pinto saudoso de proteção,
para a mísera, mesquinha galinha, não!
Um ovo é um parto e um estupro
sai o branco do quente escuro?
claro, o puro não sai puro
mas fétido, lacrimoso, destrutível, imundo
rasgando o desejo da galinha:
continuar viva, útil, produtiva.
Essas galinhas poderiam insurgir-se
ficar indignadas, putas da vida
putas galinhas, galinhas, putas, mesquinhas
a chorar suas dores, suas dilatações porque
cada ovo é menos um
cada parto é menos um dia
cada estupro é menos uma vida
dessa mísera, frágil, franzina.
Estreitada a um canto do quintal
Ei-la lamentando sua sina
ao olhar seu galo empavonado
crista alta, egocêntrico,
qual poeta que conhece tudo
sem nada sentir.
(MRCN,2003)
* João Cabral -referência ao poeta modernista (geração de 45) João Cabral de Melo Neto, autor de
Morte e vida severina e
O cão sem plumas, excelentes textos que devem ser digeridos por todos os amantes da boa literatura.