17/01/2012

Por Helena ou Em busca de Troia

No líquido breu se encontram 
os bravos varões da nau 
e é Odisseu o anão quem comanda 
o movimento suado 
dos trinta guerreiros armados 
em seu estreito barco 

Balançando entre as vagas 
do escuro domínio de Netuno 
vai a vela prenha 
de homens sedentos 
de honra sedentos 
de sangue sedentos 
de carne sedentos
  
de outros homens: 

-Haveremos de matá-los! 
-Aqueles fortes, aqueles viris... 
-Haveremos de matá-los! 
-Suas queixadas duras... 
-Seus pêlos hirsutos... 
-Seus músculos de Troia... 
-Seus lábios de moça... 
-Mais bela é Helena!  
-Precisam morrer, antes que... 
-É isso! 
-Partamos para a mortandade. 

Mas Odisseu haverá de calar 
esses pormenores espúrios 
da gente masculina 
e não chegarão aos ouvidos 
de Homero de Esmirna 
essas abjetividades pouco heroicas 
de gregos e troianos 

Mas o cego verá 
,com a vista da perspicácia, 
quantos olhares se trocam 
quantas mãos se esquivam 
(-Mais bela é Helena!) 
quantos suspiros se abafam 
dentro do magnânimo cavalo 

As mãos do cego não escreverão 
tampouco seus lábios repassarão 
por baixo dos austeros bigodes 
as vilezas do impossível sexo 

Que quase pôs tudo a perder 
não fosse a interposição de Zeus 
entre a imprudência de Heitor 
e a impudência de Aquiles

(MRCN, out/nov 2011-jan 2012) 

24/12/2011

Jesus - um cordel sobre o natal


Magnífico trabalho de Euriano Sales (texto) e Meg Banhos (ilustrações), no blog Cordel Cristão (cordelcristao.blogspot.com)

22/10/2011

A Coruja

      Se assemelha a uma coruja, a velha na sala sentada. O nariz adunco, a pele bem clara, o cenho cerrado. Nos olhos o lume é borrado, e a velha já nem fala mais. Possível que pie, escondida de nós; possível que voe, enquanto a olhamos, parada na sala. Na poltrona está estanque, há bem mais de um ano. Parece uma pedra, a velha dura. Uma pedra impossível no meio da sala, uma pedra de Drummond, ou mesmo sua flor esquálida, brotada do nada, no meio de nosso dia (e de nossas noites...).
     Mas para voar - e com aquele nariz... - há que ser coruja! A boca abreviada, um traço curto, quase desenho de menino; os olhos cavados no rosto, o rosto curto. E há pêlos na orelha, meu Deus! Mais: aposto, quando eu passar para o quarto, ela dará uma volta completa na cabeça, igual à Regan do filme O Exorcista. Igual a uma coruja. Mas sem dramas e terrores, que ela é do bem. Apenas calada. Cansou da existência... e da voz.
     135 anos, 134 de verbo. Primeiro, balbuciando, bodejando, chamando o pai e a mãe, fazendo-lhes pirraça; logo as perguntas tremidas para a professora; e então as confissões de amor, as declarações, as confidências, as chatices de adolescente.
     Disse o sim para o padre - já o havia dito para o vovô, por trás de uma Imburana-de-cambão, numa dessas tardes abrasadas, no sertão do Ceará. Deu bênção aos filhos- 16 crianças, ralhou, admoestou, praguejou, amaldiçoou quem quis sair de sob sua saia, de sob suas asas; pediu perdão, corada; chorou, fez intriga com as noras, zangou-se com os netos; brincou com os bisnetos, contou-lhes histórias, mentiras escabrosas.
    Despediu-se do vovô, depois chorou a morte de mais nove de suas crias; rezou, conversou com a visagem da mãe (morta há mais de quarenta anos),caducou, caducou; deu boa-noite a Cid Moreira, chamou José Sarney de honorável bandido, desejou final feliz pra Nívea Maria. Como falou a tal coruja. Como piapiou!
     Agora só pensa, devaneia a velha. Mas em seus voos abissais, em seus mergulhos estratosféricos, ela recobra o tempo, sobressai-se a nós, meros mortais. Uma coruja com gestos aquilinos, uma deusa em carcaça na sala: uma velha (c)alada.

12/09/2011

Eleven

Pedaços de carne
caem em flocos de neve
na consciência do homem

Um odor infernal
pútrido,
sobe e saliniza
o pensamento
do mundo no centro

Há dores, mas há partos
e um ai -
bem mais profundo -
atesta
que a esperança ainda resta

como algo que só está
porque pensamos
que somos mais
do que realmente
somos.
(MRCN, 24.06.03)

Horda de cupins, ó exército estadunidense
sobre as areias brancas das páginas dos meus livros
(MRCN, junho,2003)
_____________________________
Trozos de carne
bajan del cielo
como si copos de nieve fueran
en la conciencia del hombre

Un aliento podrido
infernal
sube y calcina
el pensamiento
del mundo en el cientro

Hay llantos mas hay partos
y un ay
todavía más hondo
comprueba
que la esperanza sigue nueva

como algo que sólo está
porque pensamos
que somos más
de lo que en realidad
somos

Horda de termitas, oh ejército estadunidense
sobre la arena blanca de las páginas de mis libros

MRCN 17.09.11

10/09/2011

Abrigai-nos, João Lisboa

Um pouco mais de vinho, ó velho!
Antes que o Abrigo se feche

As meretrizes lá se foram...

Por trás do abrigo,
à penumbra benquista,
a última diamba se queima
Os carros perambulam como seus donos
atrás de "coisinhas interessantes"

Mais um quarto de vinho, velho
Mas, qual!
Nada mais há que se esperar
além do olhar indignado
dos honestos trabalhadores
que madrugaram para a labuta
e por ali agora passam
a desdenhar dos ébrios do Abrigo da João Lisboa:

Um que fala para o nada,
outro que equilibra o sono no ar,
um terceiro que pragueja contra todos...

Os garotos de programa, a essa altura,
maculam o sono de seus lares
com o gás carbônico do ar do Abrigo;
os travestis já se desfizeram
de cílios e saltos

E os bêbados, eles e o velho
continuam por cá comigo
numa heresia grupal defronte a Igreja do Carmo

Mendigos sonham em silêncio
larápios contabilizam seus ganhos
vigias sonolentos esperam
o infame do próximo posto

E o vinho tingido, gelado, açucarado e vagabundo
ainda chispa lume em meus olhos
que nada podem contra a sede desse pecado
que só na cidade, deste lado,
tem o sabor estragado
das cinzas manifestas de um certo Baco
na Atenas do Ocaso.

( MRCN, julho,2001)
___________________________
Ainda comemorando os 399 anos de São Luís,
a Atenas brasileira, um poema baseado na vida noturna
de uma das praças mais importantes da capital maranhense,
a Praça João Lisboa e o Abrigo do Largo do Carmo

08/09/2011

As garças de plástico de São Luís

As garças de plástico
que vi lá no mangue
me falam
dos caminhos dos litros de água sanitária
que os moleques buzinam
em suas vadiagens na areia

As garças
altivas aves de plástico
jazem ou vivem no topo dos galhos
dos mangues que há nesta São Luís

Cruzar a ponte
sobre o rio Anil
é ver garças de plástico
brancas, penduradas em galhos de mangue...
São garças,sim, são!
Mas de plástico
e por dentro
o lixo dos pobres,
dos palafitados
dos mal-educados
dos apenas remediados
dos nunca assistidos
dos renegados e execrados
pela mão do grande deus social
que pinta de branco plástico
(todo santo dia)
pontos do verde manguezal

Mas essas garças não voarão
como suas parentas de penas
elas boiarão por todo lado
distribuindo doenças
como não se distribui renda por aqui

Quando a maré encher
elas se libertarão dos galhos
para alimentar de miséria e vermes
crustáceos, peixes e pobres.
(marcelino,25, 27.07)

** Sobre o rio Anil passa a ponte que liga o centro de São Luís a outros bairros da capital maranhense, dali avistam-se os manguezais "enfeitados" com sacos de lixos, em geral brancos. São Luís, 399 anos (08/09/1612)

31/08/2011

É o Amor o som
que em desacordo
com os ventos do deserto
se instaura nos acordes
de nossos corações
E faz com que ouçamos
na aridez de nossos dias
árias, barcarolas, harpas e pianos
mesmo onde só haja
sol, areia e solidão

(MRCN, julho 2011)
______________________
Texto originalmente publicado em julho,
no Blog Diálogos Poéticos, da poeta Ianê Melo

25/08/2011

Instante eternizado (sobre "O beijo" de Rodin)

Um instante eternizado
Ah, se fora em Pompeia
Ah, se fora em Hiroshima
Oxalá o tivera Nagasaki

Um beijo para a eternidade
Quisera esse instante, hoje,
em meus lábios
Quisera esse corpo, aqui,
a meu lado
Oxalá esse enlace fosse todo
em meus braços.
(MRCN, agosto 2011)
___________________
Texto publicado originalmente no blog Diálogos Poéticos
organizado pela poeta Ianê Melo

23/08/2011

Abriste uma estrada em minha vida
nela se cruzam lobos e carros
mas os farois vão apagados
e é noite, e faz frio sempre

A via que traçaste para mim
esgota meu coração
sofro pois não consigo terminar
de caminhar em tua direção

Fundaste uma estrada em meu país
e, de repente, fugiste pra o mar
já não suporto meus desgraçados pés
que não se cansam de me pisar

Buscando teus olhos vivos farois
teus braços largas pousadas
teu sorriso solar
(MRCN, julho, 2011)

20/07/2011

Pusiste una carretera en mi vida
Y en ella se cruzan lobos y coches
y los faroles siguen apagados
y es noche, hace frío siempre

La carretera que has puesto para mí
Me pone agotado el corazón
sufro, pues no acabo más
de caminar hacia tu dirección

Pusiste la carretera en mi país
y, de pronto, fuiste a la mar
No aguanto más a mis desgraciados pies
que no dejan de me caminar

buscando a tus ojos faroles,
a tus brazos paradores
a tu sonrisa solar
(MRCN, julho, 2011)

10/07/2011

"Olha pro céu, meu amor..."

Errado o passo no forró
suei, suamos
o medo de ficar só:

Tremenda agonia
em plena noite junina

Mas um traque
uma espoleta de moleque
moleque malcriado
te pôs num pulo
a meu lado

Nem enxergávamos a lua
a se debruçar sobre nós:
minha mão no teu peito
tua mão no meu cós

"Olha pro céu, meu amor..."
Mas não dava tempo, não
já estávamos alienados
das gentes no salão

quando a lanterna do guarda
nos alumiou: frustração
(MRCN, junho,...)

Festa de São Marçal

Deitar sobre os jornais
não é o mesmo que com eles deitar
Sobre os jornais há o limpo e o cabível
com os jornais sobra o sujo e o reprovável

Mas naquela madrugada
de fim de festa
te enrolaste com todos os cartazes
te deitaste
com os jornais e os panfletos

Homenageaste São Marçal
com teu boi e tua matraca
e ele sequer te providenciou um chapéu
para poupares tua cabeça

Escuta,
a lua só derrama sua luz poética
naqueles que se deitam sobre os jornais
sobrios, brancos, e líricos

Para os que se embrulham,
bêbados, com os jornais
chegam os escarnecedores raios solares
destilando o álcool em forma de suor
como aquele que vimos aflorar em tua testa
De ébrio,
De negro,
De lírico
(MRCN,fevereiro, 2007)
______________________________________

Em São Luís do Maranhão, o mês de junho é todo de festas: celebram-se os três santos festejados por essa época no Brasil, Santo Antonio (13), São João (24), e São Pedro (29) e mais São Marçal, no dia 30 de junho, dia em que os mais de cinquenta grupos de bumba-meu-boi de matraca (instrumento de percussão) se reúnem na Avenida São Marçal (antiga Avenida João Pessoa), no bairro João Paulo. A festa começa já na madrugada do dia 30 e não termina antes da meia-noite. Milhares de pessoas se aglomeram na estreita avenida, o trânsito é interrompido e, assim, escolas, empresas e comércios fecham as portas: o povo se solta na folia ao som das potentes matracas.Há alguns anos atrás era comum vermos brincantes adormecidos pelas calçadas, cansados da maratona de apresentações pelos arraiais da cidade. Esse é o conteúdo; o mote para os versos, no entanto, vem da canção de Chico Buarque "Amando sobre os jornais", gravada no disco Mel (1979) de Maria Bethânia

29/06/2011

O ovo de João e meus ovos

O Ovo de galinha
João Cabral de Melo Neto

Ao olho mostra a integridade

de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria, unitária,
maciçamente ovo, num todo.

Sem possuir um dentro e um fora,
tal como as pedras, sem miolo:
é só miolo: o dentro e o fora
integralmente no contorno.

No entanto, se ao olho se mostra
unânime em si mesmo, um ovo,
a mão que o sopesa descobre
que nele há algo suspeitoso:

que seu peso não é o das pedras,
inanimado, frio, goro;
que o seu é um peso morno, túmido,
um peso que é vivo e não morto.

Alguns ovos são mais doloridos ou E se as galinhas abortassem?
Yo

Alguns ovos são mais doloridos

em que pese a beleza estampada
em pintados e bem comportados ninhos
em que pese o romantismo avisceral
dos que os procuram em revistas, telas, poesias:
vermelhos, marrons,amarelos, brancos, limpos.

João Cabral de Melo Neto
fala de sua esférica ideal
poeta sobre a geometria do ovo,
como se fosse um galo inequívoco,
olha para o branco, a casca, o duro, o novo
mas não dá fé numa lágrima pequenina
cristalina lembrança nos olhos da galinha
-de que aquela não fora experiência das mais bem sucedidas...

Um ovo só é notório para os seus comensais
para um galo, pai seu discutível,
ou para algum pinto saudoso de oval proteção,
para a mísera, mesquinha galinha, não!

Um ovo é um parto e um estupro
sai o branco do quente escuro?
claro, o duro não sai puro
mas fétido, lacrimoso, destrutível, imundo
rasgando o desejo da galinha:
continuar viva, útil, produtiva.

Essas galinhas poderiam insurgir-se
ficar indignadas, putas da vida
putas galinhas, galinhas, putas, mesquinhas
a chorar suas dores, suas dilatações porque
cada ovo é menos um
cada parto é menos um dia
cada estupro é menos uma vida
dessa mísera, frágil, franzina.

Estreitada a um canto do quintal
Ei-la lamentando sua sina
a olhar seu galo empavonado
crista alta, egocêntrico,

qual poeta que conhece tudo
sem nada sentir.
(MRCN)

25/06/2011

Leitura analítica de "O cão sem plumas", de João Cabral de Melo Neto

Em volume intitulado Duas águas, João Cabral de Melo Neto agrupa, na primeira água, os livros Pedra do Sono, O Engenheiro, Psicologia da Composição, O Cão sem Plumas (que aqui nos interessa mais de perto), Uma Faca só Lâmina e Paisagens com Figuras e, na segunda água, Os Três Mal-Amados, O Rio, Morte e Vida Severina, e - posteriormente incluído - o Auto do Frade. O poeta pernambucano alerta quanto ao porquê dessa divisão em nota no volume de 1956:

Duas águas querem corresponder a duas intenções do autor e — decorrentemente — a duas maneiras de apreensão por parte do leitor ou ouvinte: de um lado, poemas para serem lidos em silêncio, numa comunicação a dois, poemas cujo aproveitamento temático, quase sempre concentrado, exigem mais do que leitura, releitura; do outro, poemas para auditório, numa comunicação múltipla, poemas que, menos que lidos, podem ser ouvidos
                                                                                 (MELO NETO, apud NUNES, 1974:74).

Ou seja, o escritor aponta para dois tipos de dicção, para duas possibilidades poéticas que se distinguem, na poesia, em função do destinatário e da modalidade de consumo do texto (NUNES, 1974: 74). O escritor comporia os poemas da "primeira água", enfatizando a construção do texto (daí o sugestivo título Psicologia da Composição), a expressão, com originalidade e individualidade, conforme a práxis moderna. A combinação, quase sempre insólita, de palavras de diferentes campos semânticos (Cão/ Plumas) exige a atenção do leitor, tirando-o do torpor, da alienação, do “deslumbramento” provocado por uma poesia de corte mais tradicional. Neste ponto do nosso Modernismo, a Geração de 1945 pede um leitor averso à evasão, tão cara a árcades, românticos, e simbolistas.

A exemplo disso, no poema O Cão sem Plumas, o rio e o homem se confundem num movimento comum, que fica poeticamente traduzido na imagem da natureza desplumada, sem adornos, sem enfeite. Ao leitor é apresentado e, com o leitor, é construído um Capibaribe do hoje, não o do ontem, tampouco do amanhã. O poema compõe-se de quatro momentos ("Paisagem do Capibaribe", I e II; "Fábula do Capibaribe", III e "Discurso do Capibaribe" IV). A cada passagem, o leitor é instado a refletir sobre o poema, sua matéria e sua linguagem; é importante compreender cada imagem evocada nos versos cabralinos.

"A cidade é passada pelo rio/como uma rua é passada por um cachorro;/uma fruta por uma espada."

As duas primeiras partes do poema, "Paisagem", descrevem o rio e sua relação com a cidade, não por acaso há o uso constante de verbos indicativos de essência/estado; já na estrofe que abre o texto, por exemplo, aparecem as duas composições que percorrerão todo o poema, sintetizando-o: rio/cachorro, rio/espada: o rio tem vida (cão), não a pomposa, embelezada ("Nada sabia da chuva azul, da fonte cor-de-rosa"), mas a comum, crua ("Sabia dos caranguejos de lodo e ferrugem"), por isso ele fere (espada). Fere principalmente o leitor acostumado a descrições saudosistas e embevecidas da natureza feitas pelos autores de traço mais romântico.

A proporcionalidade entre os elementos da comparação inicial (cidade/rua, rio/cachorro: um cachorro cruza uma rua, um rio cruza uma cidade) corrobora para o inusitado da última comparação (cidade/fruta, rio/espada: partir uma fruta com uma espada não é algo comum). O inusitado pertence à esfera da poética modernista de João Cabral de Melo Neto.

Na primeira "Paisagem", o elemento homem ainda não está totalmente integrado à descrição do rio; as indagações fecham essa primeira parte como a dizer que estas seriam respondidas na continuidade do poema: "Por que parecia aquela uma água madura?/ Por que sobre ela, sempre, como que iam pousar moscas?/ Aquele rio saltou alegre em alguma parte?"

A pergunta já quer imprimir uma resposta: aquele rio de água quase parada (velha, gasta) pelo qual não sobrevoam coloridas borboletas, mas desconcertantes moscas, é figura mais de tristeza que de alegria.

A segunda "Paisagem" nos apresenta o elemento humano mais conectado ao rio; nessa parte, a vida do homem, da cidade e do rio se amalgamam:

"Como o rio/ aqueles homens são /como cães sem plumas (...)O rio sabia /daqueles homens sem plumas.(...)Porque é na água do rio /que eles se perdem "

Nessa parte do poema, aparece o cotidiano da cidade, a pachorra da vida provinciana, o comércio: elementos que compõem o entorno, o cenário do rio; a descrição, pois, ainda impera, basta que atentemos para o fato de que os verbos empregados, em sua maioria, não denotam ações modificadoras de objetos (ser, saber, perder-se...)

Na terceira parte do poema, "Fábula", temos aquilo que está explicitado no título: a história do Capibaribe. Aqui há a narração, os fatos, o enredo; os verbos neste ponto denotam ação, no sentido estrito da palavra.

"A cidade é fecundada/ por aquela espada (...)No extremo do rio/ o mar se estendia, (...)O rio teme aquele mar (...)Primeiro,/o mar devolve o rio. (...)Junta-se o rio/ a outros rios/numa laguna, em pântanos/onde, fria, a vida ferve. (...)Juntos,/todos os rios/preparam sua luta/ Depois,/o mar invade o rio."

A "Fábula" apresenta ao leitor elementos que compõem a vida do rio Capibaribe, entre os quais figura como principal personagem o mar (estende-se, põe medo, devolve, invade...). Não há como contar a história do rio sem fazer referência ao mar. Nesse trajeto do rio para o mar, ainda há espaço para falar do homem, elemento caro à poética cabralina.

Na última parte do poema, "Discurso do Capibaribe", o eu-poético está em seu elemento: o discurso é a linguagem, a dicção, a fala ( "Aquele rio/está na memória/como um cão vivo"); homem e rio têm voz, têm algo a dizer de sua história comum, uma história sem plumas, sem ornamentação, porque sobre ela o autor não passa verniz, ao contrário, desmascara, denuncia; esse é, aliás, um outro aspecto da poesia de João Cabral de Melo Neto: o componente social, aqui perfeitamente explícito nos versos:

"Como todo o real/ é espesso/.Aquele rio/é espesso e real.(...)Espesso/como uma maçã é espessa./Como uma maçã é muito mais espessa/se um homem a come/do que se um homem a vê/Como é ainda mais espessa/ se a fome a come./Como é ainda muito mais espessa/se não a pode comer/a fome que a vê."

Nesses versos retornam os elementos já anteriormente elencados para compor a paisagem e a fábula do Capibaribe (a fruta e o homem). O último verso é de uma força poética magistral, na medida que, por intermédio da comparação, estabelece a ponte entre o regional (o rio Capibaribe) e o universal (a impotência do homem frente a fome, o desejo obstado). A universalização do regional é outro ponto de contato entre os autores da geração de 1945.

A caracterização do rio como algo que fere (espada) já apresentada ao leitor na primeira parte do poema, "Paisagem", reaparece no "Discurso": "é agudo.(...) O que vive fere." O "Discurso" irá agrupar todos os elementos presentes nas três primeiras partes do poema (Paisagem e Fábula), afinal é pela via da linguagem que o homem descreve e narra, isto é, o autor deixa para a última parte do poema a condensação do que seja esse cão sem plumas, esse rio sem fantasia, esse homem sem romantismo.

                                                                                                             Marcelino Cutrim



REFERÊNCIAS

NUNES, Benedito. João Cabral de Melo Neto. Petrópolis, Vozes, 1974.

PINTO, Maria Isaura Rodrigues. Rio/homem: Cursos e discursos na poesia de João Cabral

21/05/2011

O último email

    E eras tu quem não me deixava falar; e eras, sim, tu a voz primeira a me fazer calar. E agora pedes – por que não dizê-lo – implora por minha voz em teu leito derradeiro. Fica, pois, como resposta com este talvez insuportável email.
   Soube já de tua última sessão de quimioterapia, chorei um pouco. Teu filho me enviou um torpedo pelo celular, não tive dedos para respondê-lo: minhas mãos estavam ocupadas, tentando calar meu desespero. Reprimi-o. Refiz-me. Preparei meu discurso. Ei-lo.
   Tua vida não foi curta; meu amor, sim. Insuficiente. Muito pouco o meu amor, beirando a anemia, a covardia. A ponto de não me permitir a última visita a quem me deu – confesso – alguns felizes momentos.   Se calava era por me fazer bem o silenciar à tua escuta. Mas... tanto silenciar produziu efeito colateral devastador em minhas células coronárias. Adoeci. A causa? Tua indiferença, teu silêncio. Telefonemas, emails, MSN, comentário em perfil: nada, nada recebi de ti. Sequer um fuxico envolvendo nosso nome, uma fofoca a dizer que estavas rindo às custa de minha desdita. Até isso me satisfaria, mas nada! Nem isso me veio de ti. E olha que estive, como tu agora, à beira da morte.
   Acompanhei à distância o desenrolar de tua doença. Entrei em alguma igreja. Rezei por ti (sempre o silêncio de que tanto gostavas). Sofri com tua recusa seguida de tua derrota. Tu me abandonaste. E por que me queres perto de ti, nesse momento tão triste?
   Não, não irei. Não terás mais força na voz pra me silenciar... E eu chorarei, então. Não, isso não. Meu choro pode acelerar o cerrar de teus duros olhos. Não quero essa carga para mim. Minhas lágrimas poderiam fazer as vezes de vozes silenciosas e teus sensibilíssimos ouvidos não as suportariam por muito tempo. Não quero tal carga para mim. Fica, pois, com este email. Que teu menino o leia e não minta uma só palavra aqui escrita, tampouco traia minha sintaxe e estilística.
   Meu amor pode ter sido pouco, mas não deixou de sê-lo.
(MRCN)

14/05/2011

1983 ou Versos de um potiguar aperreado com a seca

Mija em mim, Pedro.

Não, isso não é homoerotismo
é só vontade de chuva
(e certa intimidade com os céus)
É desejo de água
Pra esta terra, mulher ingrata

Então, mija em todos nós, Pedrão
Faz balançarem as parcas folhas
naquele galho abrasado
com uma mísera gota
do teu santo cajado

Meu santo me embala os sonhos
de um Caraúbas mais molhado
Mija em todos nós, Pedrão
faz teu xixi sem perdão
-não te pões de rogado-
Nada mais de economia pr’este sertão

Perto que estás de Jota Cristo,
belisca-o, Fe-la-da-pu-ta
belisca-o,
pois cansado ele dorme
de tanta labuta
Faz com que arregale
aqueles olhões azuis
sobre estes trechos nus
sem nenhuma plantinha pra sombra

Faz tuas necessidades urinais
sobre nossas cabeças
Elas agradecerão uma chuvinha que seja
Pra reverdecer a colheita

Balança a piroca, Pedroca
e que essa aguinha bem dita
invada a terra e sacie a semente
Lave a folha e molhe a gente.
(MRCN,novembro 2010)

23/04/2011

Meu Jesus de olhos lassos

Meu Jesus de olhos lassos
Deixai-me acertar contigo os passos
quero aprender a caminhar sobre o mar

Quero andar sobre as ondas
e -perdoa- fazer inveja aos surfistas
Alisarei a pele da água
com a planta dos pés que me deste

Jesus bom, de olhos vivos
vou sair de mãos dadas contigo
e na vertical flutuar
( pulando as marolas do mar)

Não subirei na canoa
porque tenho, na minha, a mão do Cordeiro
tenho o sal de espuma entre os dedos
e, sob a sola dos pés, a veste de escamas marinhas

Jesus, no cinema dilacerado,
vou repintar teu corpo, meu Amado
vamos dançar sobre o mar?

Não me espantarão barbatanas
nem os esguichos das baleias
mas desviarei dos delfins e de suas piruetas

Jesus, reconstituído na computação gráfica,
tu me dizes a fórmula mágica?
vens comigo para o mar?

Vens, barbudo e moreno, e com feições distintas das que vi
(no quadro da copa lá de casa)
-dizem que mais reais e próximas do possível...

Tudo bem, vem
vamos passar da arrebentação,
De qualquer forma:
a lua rebrilha na prata do mar que pisamos...
( MRCN, 2004)

26/03/2011

Num março de alegrias

Num março de alegrias
Lembrei-me de um triste janeiro
-Rosas brancas habitam
À roda das rosas vermelhas-
Meu rosto cansado enxerga
Aquele rosto outro no espelho
E choro ao lembrar-me dos dias
Em que vivíamos no mesmo planeta
E choro e sofro e imagino o bom
Que seria estar
Ainda,
aqui,
Com ele.

(MRCN,março/2003)

19/03/2011

En alguna ventana

En alguna ventana
La luna
se acerca y sonríe
de uno
Despistada,
no se fija allí
en los pies desnudos
que, en pares,
dulcemente
se golpean en la cama

En alguna ventana
La luna
lanza adentro
su color de blanca leche
Generosa,
se hace candela
a que los ojos desnudos
en pares
dulcemente
platiquen en la cama
(MRCN)

15/03/2011

E o amor é assim...

Transtorna como o choro
do filho cuja flora
intestinal se forma
(Põem-se as mãos na cabeça...)
-Nada há que se faça
pra esse amor
que não cala.

Feito a lembrança da perna
pra o de há pouco amputado
(Foi-se o meu pedaço...)
-Impotente o amante é
à distância da carne
que tanto se quer.

Qual o lamento dorido
da mãe cujo filho
se foi pra não mais
(a “balada”, a droga:
o carro, a mureta do cais)
-De apagar um amor
,assim tão uterino,
nem o tempo é capaz.

(MRCN, 07/12/10)

26/02/2011

Um pra cada um (A palavra na era da imagem em 3D)

    No século 19, as pessoas sentiam o cheiro da baunilha no hálito de Iracema e se admiravam com a força do índio Peri, abraçado a onças e a palmeiras, derrubando umas e outras pela vida e pelo amor de uma mulher: Ceci - tudo palavras; só palavras, apenas as letras impressas nos folhetins dos periódicos cariocas. Mas todos viam, sentiam, e se extasiavam.
   Um século antes, os homens se imaginavam em pascentos pastos ao lado de córregos, borboletas e gados. Evadiam-se da condição lhes imposta pela dura realidade do ciclo do ouro nas Minas Gerais e entregavam-se aos amores dos cupidos alados com suas flechas enamoradoras. Tudo palavras, como dissera Cecília Meireles, “Palavras aéreas”, que transportavam nossos conjurados e seus leitores à Arcádia – bela palavra.
   E o que dizer dos seiscentistas, com suas imagens contorcidas, antitéticas, hiperbólicas? Também palavras, ditas ou lidas, mas sempre poderosas, revelando para a portuguesa Mariana Alcoforado os deslizes libertinos do seu oficial francês, seu amor impossível e platônico; revelando na lírica do baiano “Boca do inferno” a transitoriedade das coisas, das rosas que viram cinzas...; revelando, para Padre Antonio Vieira e seus fieis, a palavra de Deus contra a escravização dos índios no Maranhão - e sua condescendência com o martírio dos negros nos engenhos de açúcar. Palavras...
   Mas saltemos, pela palavra, trezentos anos e cheguemos ao século XX. A era do cinema, da imagem em movimento, da velocidade de informações. E de imagens. Mas qual desses veículos (cinema, TV, teatro, imagem digitalizada) poderá expressar o constrangimento do retirante Fabiano frente ao Soldado amarelo, como dizem os substantivos e as vírgulas do livro Vidas secas? Que roteirista, que ator, que design gráfico conseguiu transformar em imagem convincente a solidão avassaladora dos Buendía nos Cem anos de solidão de Gabriel Garcia Marquez? Nenhum. Somente elas, as palavras, combinadas e tramadas, conseguem nos fazer enxergar o olhar triste e desolado de Aureliano Buendía frente ao pelotão de fuzilamento; conseguem nos fazer sentir o sofrimento de Cristo junto ao corpo sem vida de José, seu pai terreno, de "pernas finas", no Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago; conseguem nos fazer vislumbrar o sonho lindo e trágico da cachorra Baleia: centenas de preás gordos e suculentos, pulando pelas páginas do romance de Graciliano Ramos.
   Estamos na alvorada do século XXI e a pendenga surgida no novecentos persiste: o livro sobreviverá às inovações tecnológicas (DVD, livro digital, cinema em 3D...)? A palavra impressa resistirá ao poder encantatório da linguagem não verbal? Claro que sim, pois ela, a palavra impressa, guarda um trunfo irresistível: o caráter democrático.
  A televisão e o cinema já trazem prontas as imagens e enfiam-nas goela abaixo, olhos adentro, a partir do ponto de vista de um diretor, de um roteirista, ou de um arte-finalista. Ora, os olhos da minha Capitu não se assemelham aos da Capitu lida por minha professora. Meu Riobaldo não olhou para o corpo de Diadorim do mesmo jeito pensado por Guimarães Rosa.
  Cinquenta meninos em uma sala de aula e, se lhes for dada a oportunidade, cada um visualizará Julieta Montéquio num ponto diferente do balcão donde fala ao Romeu do bardo inglês. Essa democracia não pertence ao mundo das imagens prontas e massificadas. A lógica das grandes empresas do ramo do audiovisual é de um para um milhão; a do livro é de um pra cada um. Todos os espectadores têm a liberdade de enxergar o personagem Schindler do filme de Spielberg no rosto de Liam Nielsen. Cada leitor, por sua vez, concretiza um tecido verbal a seu modo e a seu tempo, com o seu gosto.
  A liberdade de imaginar uma cena, pintar um tipo, um personagem, pertence à esfera do livro; em sua fragilidade e vulnerabilidade às traças e ao tempo, ele guarda o poder de fazer de cada leitor um autor. Palavras.

(MRCN, Postado no Recanto das Letras em 21/03/2010)

20/12/2010

Bella, Selene, Anna Valerious, Mina, Elizabetha...

O que sinto por você
é como se lobisomem fosse
na hora da transformação
Dilatando vísceras, estalando ossos
e um canino dentão
doendo, doendo, doendo de amor

Na orelha pêlos crescem
como nos corações o rancor
Aí estalam-se mais ossos
e os maxilares em proeminência
uivando de paixão:
Lobisomens sofrem;
vampiros, não.
(MRCN,agosto, 2010)

10/12/2010

Porque o natal é cotidiano
e tu renasceste por esses dias
sei que acompanharás o sol
em seu movimento diário
de surpreender os incautos
e maravilhar os sábios

Levarás por tua estrada
nossas pegadas
algumas nos olhos
outras no riso
muitas no coração

Deixarás aqui
- como o sol faz todos os dias -
tua pegada, tua pista, teu sinal
em alguns olhares
alguns risos
em muitos corações

Porque o natal é diário
e tu não te cansas de nascer
a cada instante
sei que surpreenderás o próprio sol
por esses dias
com tua luz, teu riso...
teu coração.

(MRCN, 2005; para uma companheira que viajou pra estudar)

08/11/2010

No oco da cana

Minhas mãos estão tão feias
como passá-las nos cabelos de Morena,
sem ofendê-la?
Como tocar sua testa
sem arranhá-la,
sem trincar sua pele de seda?
Bela pele pra mim de manteiga

Como passá-las tão feias
por sobre o pêlo de minha negra,
sem ofender sua pele guardada
porcelana de rico pra mim, pobrezinho

Foi aquela enxada, o rabo de galo
e a terra irritada
com seu capim seco, suas ervas daninhas
seu muito trabalho
-sem recompensa, ora vejam!

Foram as carrocerias de caminhão
em que me pendurei esses meses todos
de um canto a outro
pra sofrer humilhação

Foram as diárias punhetas
sem dinheiro pras raparigas
quase que sem ter o de comer
com os dentes falhos
-avalie-se com o pau!

Foram também os "bolos" em criança
dados com precisão
pra mudar de vida...
que vida, então?

A que não se faz só com riscado em caderno
A que se faz com fingida eleição
Com notícia de morte encomendada
Com mulher longe, ilhada
Sem o tocar da minha grossa mão...

Foi toda uma vida de pedras e galhos torcidos
Sol sem poesia
me deixando com o olhar calejado

e a mão emudecida.
(MRCN,10/10/10)
______________
"Rabo de galo" é um tipo de facão, usado para capinar;
Em muitos lugares do Brasil, "rapariga" que, em princípio, é feminino de rapaz, designa prostituta.
"Avalie-se" é expressão comparativa equivalente a "muito menos"

04/11/2010

Vinte e cinco do oito

Fora, urubuzada!
gritavam os adolescentes iraquianos
Alegres por liberadas as praças
pra seus namoricos e treinos
de coqueteis molotov

Dando pulos e urinando na grama
como quem marca em território
seu harém particular,
Festejavam a retirada
dos bárbaros inoportunos
como os rivais seus -
só que adolescentes-
nos corações das Raíssas,
Wassans, Samiras,
Lamyas e outras mais
sobreviventes à praga
vinda em vento
do norte da América...

Dentes iluminados pelo sol do Iraque
os aduncos rapazes sorriam
em suas sobrancelhas grossas
em sua seriedade secular
Sorriam:
Nunca precisaram de Xerifes,
mas de Xerazades, Jades
e Lattifas

Hip-hip-hurra!
que já partem os carniceiros do Atlântico Norte
com sua fala dura,e seu cheiro de loção pós-barba
e de morte.
(MRCN)
______________________________________________
* "Só que" é termo com valor adversativo.

11/09/2010

Onze do nove

XI
Pedaços de carne
caem em flocos de neve
na consciência do homem

Um odor infernal
pútrido, sobe
saliniza o pensamento
do mundo no centro
(Oh, World Trade Center)

Há dores, mas há partos
e um ai -
bem mais profundo -
atesta
que a esperança ainda resta

como algo que só está
porque pensamos
que somos mais
do que realmente
somos.
(MRCN, 24.06.03)





Num mundo de gritos
escuto ais que estouram meus tímpanos
Os sons se confundem
são tantos que ampliam o infinito

Gritam formigas e gastrópodes
choram joaninhas e borboletas
urram celenterados e besouros
Toda hora sem cessar
me sobem esses sons

Por que ninguém os ouve?
só eu me torturo?

O petroleiro que afundou no Atlântico
e estraçalhou um coral
fez aflorarem bolhas e berros
profundos gemidos
dos seres marinhos
e ninguém nisso deu fé,
Mas eu, sim,
e sofri.

Como no tempo em que os jatos cortaram
o ar nova-iorquino
e desviaram a rota do passarinho

que se espatifou na parede!

A penugem juntou-se aos destroços...

Mas só se chorou a morte de milhares de pessoas
não a de trilhões de periplanetas americanas
não a de milhões de roedores de Manhattan
devidamente esmagados pelas "forças inimigas"

Os guinchos, berros sofridos
foram sufocados numa tristeza ocidental:
Só os homens importam,

bípedes que matam bilhões...
(MRCN, 19,20/11/2003)




Horda de cupins, ó exército estadunidense
sobre as areias brancas das páginas dos meus livros
velhos como o Velho continente
como o velho Golfo Pérsico
cheios de um petróleo:
o saber e a cultura
dormindo nas profundezas da capa dura
dos meus livros.

Eu os queria cupins exegetas, perspicazes cupins
que devorassem antropofagicamente
a cabeça dos homens escritores
cupins modernistas e tropicalistas
para devolver com outro
o saber deglutido
Mas não,
só dejetos e egoísmo deles vêm.

Não raro brancos como os da Força do Bem
bolem-se iracundos contra fileiras e colunas
de frágeis letrinhas pretas
vestidas em suas burcas seculares.

Cupins, ó varguarda do exército da Microsoft
da Grande Maçã
aí vão eles, destruindo a cultura do papel
do manuscrito, de Gutemberg, de séculos e séculos
Querendo nos incutir que o moderno
o correto, o mais certo, o único
é o disquete, o pendrive
o e-mail e a Internet
e o poder que lhes cai às garras
e às bocarras de miserandos cupins.
( MRCN, junho,2003)


Enquanto isso em Bagdá

Areia em nossa comida
Chegaram os últimos dias
Clarões por trás das colinas
Fumaça,
Alarido,
Agonia.
(MRCN,2004)

27/08/2010

Vou atravessar teu rio
e, de uma beira a outra,
me encharcar contigo
Preciso quebrar a ponte
sobre o teu vazio
Pra ninguém mais
encontrar teu leito
nem pousar a cabeça
no macio peito
onde mergulho, de quando em quando,
e do fundo trago
algas de meu pranto

Vou mergulhar em teu cio
e, de uma ponte a outra,
me molhar em teu brilho
Não quero sustentar a ponta
de um amor-estio
Quero regar teu peito
com o meu esguicho
pra ninguém mais provar teu leito
nem afogar o seio
onde a cabeça encosto e ouço
memórias de mães-d'água, peixes e botos...
(MRCN)

14/08/2010

Sevandija na sépala de uma flor no jardim

Era ao cair da tarde
e se bulia o vermezinho imundo
maculando com sua gosma
o vermelho com que eu iria expressar
meu amor a Semíramis

Quedei-me a matutar:
"Essa sevandija na corola...
algo está prenunciando!"
Seria o vermelho símbolo de paixão agônica?
ou sangue de desgraça vindoura?

Pelo sim pelo não,
esqueci o encontro com a encantadora Semíramis
e pus-me a velar sevandijas
que brotavam aos borbotões
de tantas excrescências de boi
pelo jardim espalhadas

E já era a lua alta a banhar-me notívago
e eu cá encasquetado com o verme na flor:
Com sevandijas, sem Semíramis
Com sépalas, sem amor.
(MRCN)

05/08/2010

Poema Quadrado

SONHO - CAMINHO
CASA – PLANTA

Sonho com a nossa casa
Casa comigo. Vem, me abraça
Planta a felicidade em meu caminho
A felicidade é o nosso ninho
Por isso caminho junto a ti:
é o meu destino. O meu sonho
estar aqui:
Como uma planta
e
n
r
a
i
z
a
d
a

em ti
(MRCN)

11/07/2010

Meninas e meninos II

Quando, estando
no banheiro ao lado,
escutarei o jorro da urina
do meu marido amado?
-especulava a menina

Quando, estando
dela por cima
sentirei na pele a pressão
da unha feminina?
-febricitava o menino

-E a voz rouca no despertarmos juntos?
-E se ela roncar muito?

-Ele um dia me trará café à cama?
-E se o pai dela torcer pelo Vasco da Gama?

-Vai ser realmente bom
ter o tal braço forte por perto?
-Até quando bancarei o namorado discreto?
...
-Não sei se,
igual minha mãe,
por vinte anos tanto aguentaria...
-Talvez seja melhor nos pegarmos só por uns dias...
(MRCN)

17/06/2010

Alguns ovos são mais doloridos ou E se as galinha abortassem?

Alguns ovos são mais doloridos
em que pese a beleza estampada
em pintados e bem comportados ninhos
em que pese o romantismo avisceral
dos que os procuram em revistas, telas, poesias:
vermelhos, marrons,amarelos, brancos, limpos.

João Cabral de Melo Neto
fala de sua esférica ideal
poeta sobre a geometria do ovo,
como se fosse um galo inequívoco,
olha para o branco, a casca, o duro, o novo
mas não dá fé numa lágrima pequenina
cristalina lembrança nos olhos da galinha
-de que aquela não fora experiência das mais bem sucedidas...

Um ovo só é notório para os seus comensais
para um galo, pai seu discutível,
ou para algum pinto saudoso de oval proteção,

para a mísera, mesquinha galinha, não!

Um ovo é um parto e um estupro
sai o branco do quente escuro?
claro, o duro não sai puro
mas fétido, lacrimoso, destrutível, imundo
rasgando o desejo da galinha:
continuar viva, útil, produtiva.

Essas galinhas poderiam insurgir-se
ficar indignadas, putas da vida
putas galinhas, galinhas, putas, mesquinhas
a chorar suas dores, suas dilatações porque
cada ovo é menos um
cada parto é menos um dia
cada estupro é menos uma vida
dessa mísera, frágil, franzina.

Estreitada a um canto do quintal
Ei-la lamentando sua sina
a olhar seu galo empavonado
crista alta, egocêntrico,

qual poeta que conhece tudo
sem nada sentir.
(MRCN,2003, revisado 2010)
*Referência ao texto "O ovo de galinha" do poeta modernista (geração de 45) João Cabral de Melo Neto, autor de Morte e vida severina (1956)e O cão sem plumas (1950), excelentes textos que devem ser digeridos por todos os amantes da boa literatura.

22/04/2010

Engessaste-me o peito, querida
virando a cara a minha fala
de angústia
batendo a porta a meu gesto
de súplica

Engessavas-me a alma,
amarga
e não via, tampouco sentia
minha lágrima
tão pouco...
não escutavas, não atendia
nem entendia
meu chamado

Engessaste-me a vida,
bandida
e saiste rua à fora
com meu filho
e foste embora
trovejando tuas palavras
- Sem sentido.
(MRCN)

Outra descoberta

Gotículas d'água suspensas no ar
O cloreto de sódio suspenso no ar
É um ar de abril
e venta muito nas velas da minha nave
Meu olhar perdido, distante
pensa nessa gente, distante,
E vislumbro o futuro triste
que, ah,bem perto lhes aguarda

Meu olhar mareja
e uma lágrima corta, vertical, minha face
(A língua no lábio sabe o sabor do sal)
Não são saudades da Ibéria, não,
mas a certeza de que
morte e miséria vêm refletidas
nos espelhos que lhes trouxe
e que descansam logo ali embaixo

no bojo da minha nau.
(MRCN)

23/03/2010

Florezinhas brancas
numa floresta de fungos:
A fome e o amor : o mundo.
Sol de fracos raios,
em folhas molhadas,
e o verde em desmaio.
O branco e o úmido: profundo

A tristeza líquida
brotando no chão da mata
vedada, intransponível, mas gasta
transitada mil anos atrás
por coleópteros e dípteros
sanhaçus, curumins,e ornitorrincos colossais...

Quando as flores gritam,
os cogumelos, sátiros delas,
festejam
Se a árvore geme,
a orelha-de-pau, lésbica,
sorri:
mofo e beleza: em tudo

E a vida segue assim,
Poética e trágica
na floresta do mundo real
sonhada pela inspiração do poeta urbano.
(MRCN)
Tudo em mim é parar
E não encontrar justificativa
Para o próximo passo
Tudo em mim é lembrar:
Sol, sombra
Um dia de mormaço...

Tragédias podem se desenhar
Nas ruas por onde passo
-tudo em mim é descaso
As coisas todas ficam em mim
E eu sinto um grande cansaço
Por não lhes dar destino
Tampouco lhes dar espaço

As alegrias também
Vindas da vontade
Ou do acaso - tanto faz!
Tudo em mim é desdém
O riso não me traz embaraço

Mas eis que se
De uma hora para outra
Abre-se uma porta, uma janela
Nesse mundo todo lasso
Tudo em mim se transforma
Mudo janeiros em marços.
(MRCN,ago/01)

06/03/2010

O que era pra ter sido e não foi

O neto no tempo certo
A volta do pródigo ao lar
O filho antes da morte
O desejo de boa sorte
A palavra correta

A atitude tomada
A risada
A promessa não feita
A desfeita
A frase bem ensaiada

A voz não tremida
A mão estendida, firme
O não bem dado
O risco calculado
A palavra exata

A recusa orquestrada
A coragem havida
O aperto de mão sincero
O deslinde do mistério
A frase bem dita
(MRCN)

30/12/2009

No tempo em corrias para os meus braços, Jesus
Quantos sorrisos trocávamos de alegrias
E agora te olhando aos trambolhões
Com essa cruz sobre o dorso
Mal consigo respirar
Sofrendo contigo...

Essa coroa e esses espinhos
Também me afundam a carne
E me ferem, Filho
Me ferem, pois senti teus pequeninos chutes
De Deus-menino, em mim, por dentro
Em meu ventre
-E essa agora de Deus-menino?!-
Se te vejo é assim
Franzino, magro, magrinho
Despedaçado, carne em farrapos
Barbudo dos desertos
Tão coitado, tão meu filhinho
(e agora mais que nunca)
Deixando o sangue
- que também é meu!-
Pelas paredes e pelos monturos
Em que esbarras nesta Jerusalém

Teus olhos banhados de sangue
Me vêem ainda, Pequeno?
Não, não faz esse esgar de dor
Que ele me dilacera a alma
-e ainda me chamam de bendita!-
Se não me respeitam e me obrigam
A olhar minha cria
Carregando dois toros de madeira
Para salvar um mundo condenado
Para todo o sempre

Se teus cotovelos estavam machucados
Eu os beijava;
Teus joelhos, Traquinas
Quantas vezes limpei seus arranhões
Com estas mesmas mãos
Que ora tentam abafar o choro
De uma mãe que vê seu filho sendo assassinado
aos pouquinhos...

Por que, Filho, não renunciaste a tudo?
E foste só um nazareno, como teus irmãos?
Por que, por amor a mim, e não ao mundo,
Não casaste e tiveste meus netos?
Sem grandes intrigas,
Sem ajuntamentos perigosos
Sem contendas com comerciantes, romanos e rabinos

Sem ter que salvar o povo todo!
(MRCN)

18/10/2009

deus é relativo
sempre acerta o alvo
altivo
e dá de ombros pras críticas
considerando-as caducas, ridículas

deus é educado e ativo
não demora contabilizando estragos
elegante e calvo
ele passeia nas nuvens
donde nos olha, do alto

muito sensato e calmo
relativiza as escolhas
e, num gesto todo cabível,
brincando, sopra as folhas
pra avisar do dilúvio

mas os incautos, os céticos, seus críticos
não atinam com o presságio
e se molham
depois para o céu olham
e praguejam...

então deus relativamente
-o que lhe é plausível-
deles desdenha
limpa o pé em alguma asa e
para os anjos acena:

“Vão enxugá-los!”
(MRCN,out2009)

09/10/2009

meu verso
não é endoscopia
e diz o que há em mim
o que está e vem de dentro de mim

é a matéria da água
que escorre intangível por entre os cabelos
-caules e folhas do pensamento-

meu verso é

um pó da terra
pisada secularmente por hordas
de homens e suas histórias;
chama de um fogo
útil na cozinha
lúdico na fogueira
mortal-centelha
(se perto de gás)

meu verso também

todas as moléculas de um ar
é meu verso
todas as partículas que estão
no sofrimento do asmático
no ofegar do amante
no ultimato da vida

ei-lo
sendo tudo
sem nada ser

meu verso ser

fio de água
onda no mar crispada
todos os plânctons
todas as crenças
numa pia batismal
numa oferenda a iemanjá

o meu é verso

meu verso é já.
(MRCN)

02/10/2009

“Eu mesmo não sirvo”

Eu nunca prestei
Fui sempre um péssimo
Um dos mais ruins
Que por aqui já passaram

As jóias tombadas aos meus pés
Eu as pisava, chutava
E, quando não, desprezava-as
Se eram raras nem sequer as notava
Mesmo os diamantes mais puros
Conseguia destruí-los
E, se me arranhavam por dentro
Disfarçava a dor
Com olhares de soslaio
Ou encenações de contemplativo

Busquei por vezes amar,
Ajudar, dar o braço a torcer
E consegui. Algumas vezes só.
Mas prestar, não prestei.

Tenhamos dó!
O que é ser bom?
Para quem se é bom?
É bom o que deixa
A cada trecho da estrada
Um pedaço seu?
Porque a cada parada do caminho
Há quem peça uma parte nossa
Um pouco de carinho, de amor
Algo de esperança,uma segurança
Um olhar mais ou menos sensual...
E se essa distribuição é feita
Equitativamente
Aí é-se bom!
Como se presta então!
Mas eu?!

Eu nunca prestei.
(MRCN, 2007)

10/09/2009

É SENSATO FORÇAR A BARRA?

Vale a pena forçar a barra
da calça do pai
que é mão-de-vaca?
A barra da saia
da guria ensimesmada?

É sensato forçar o sol
quebrar a barra?
Forçar o barro
da casa que é de taipa?
Forçar um barro
pra se dar uma cagada?
Forçar uma bala
em meio à luta armada?
Forçar um berro
na escuridão danada?
Forçar um beijo
quando a língua está travada?
Forçar a borra
do café pra uma coada?

Não é necessário forçar nada:
Nem a brasa
pra queimar na madrugada
Nem a brisa
pra agasalhar a namorada
Nem um brinco
na orelha não furada

Forçar a barra
É barrar a força
que existe em nossa alma.
(MRCN,out/nov 2002)

26/07/2009

Poetas não dirigem motos
não dirigem carros
Vão de ônibus
Que é mais sensato

Nefelibatas
meditabundos
exegetas do que é mínimo
Importa-lhes menos a direção
que o desatino

Assim podem infringir
a lei comum, o sinal vermelho
E morrer uma morte sem poesia
mas com sangue, fotos
–que horror! -
mutilações e escárnios:
“Esse era doido!”

Tomai ônibus, poetas meus
Ali é-se dirigido
e eximido de culpas
E nossa loucura é –
mais uma vez –
Fundamental

Enquanto um sua
dirige, se estressa
com desaforos, desabafos
falsas promessas,
Ei-lo o poeta
brisa na cara
de tudo esquece
E se esquece

Espanta-se com o óbvio
apascenta-o o extraordinário:
o choro do cheira-cola
o frisson do fresco na fila
o muxoxo da mulher menstruada
tudo vira em suas mãos poesia
Mesmo o comezinho
branco, hetero, abastado
pode dar em alguns versinhos...

Ao poeta não é vetado
transformar o sensabor
em doce ou acre

Mas é mister não dirigir moto
caminhão ou carro.
(MRCN,out2002)

05/07/2009

Alícia e a cannabis sativa

“Sopra o tempo da angústia
É chegada a hora da tristeza”

Andava pelos campos cabisbaixa
Alícia, e seus poderes inescrutáveis

Falara já a flores e abelhinhas
Um rio já lhe murmurara a sina

Ninguém naquela vila, porém, acreditava
E Alícia com seus bichos ia e vinha

Os vilões abstêmios e seus narizes
Infensos ao olor que de longe se sentia

Jamais criam nas peripécias
Da viloa andrajosinha

( Ela, contudo, já conseguira falar a flores
E dialogar com uma operária abelhinha)

O fumo que cobria a floresta para além da vila
Surtia efeitos incríveis, milagres que o comum não via

Falar uma andrajosa a esquilos?
Contar os segredos de um rio?

“Nefastos devaneios são
De quem perdera o juízo”

Tomada por uma crise de abstinência
( Grande mal que a falta faz da ervinha),

Alícia chocou-se com uma pedra
Calou-se a poderosa voz da rainha

E agora não perambula nem provoca dos vilões o riso:
Mofa e pedra deixaram órfãos os animaizinhos

Calaram a sandia realeza

“Sopra o tempo da angústia
É chegada a era da tristeza”
(MRCN, ago2001)

29/06/2009

A formiga olhava o tapete
extenuada...

Quando chegarei do outro lado
com minhas irmãs?
conjeturava o inseto

Antes que a montanha de borracha,
sob os pés do menino,
esmagasse a pequenina

Amalgamando ocelos e sonhos,

linfa, desejos
e antenas
(MRCN,28/11/07)

01/06/2009

Romance de 5 seg. numa estrada brasileira

Na Br
Passo correndo por ti
Minha velocidade espalha
teus cabelos Levanta
tua saia Confunde
meus pensamentos

E vou...
Comigo o olhar perdido
Num olhar espantado
Numa boca entreaberta
Num pulo no asfalto

Agora tudo em minha mente
Deriva de ti
Daquele instante
Em que minha carreta
Rasgou tua estrada
Amassando a bacia
( e a pedra de anil)
E fez levantarem voo
As roupas por ti lavadas

Eu baguncei teu serviço:
Tu atropelaste meu dia.
(MRCN,27/05/02)