18/10/2009

deus é relativo
sempre acerta o alvo
altivo
e dá de ombros pras críticas
considerando-as caducas, ridículas

deus é educado e ativo
não demora contabilizando estragos
elegante e calvo
ele passeia nas nuvens
donde nos olha, do alto

muito sensato e calmo
relativiza as escolhas
e, num gesto todo cabível,
brincando, sopra as folhas
pra avisar do dilúvio

mas os incautos, os céticos, seus críticos
não atinam com o presságio
e se molham
depois para o céu olham
e praguejam...

então deus relativamente
-o que lhe é plausível-
deles desdenha
limpa o pé em alguma asa e
para os anjos acena:

“Vão enxugá-los!”
(MRCN,out2009)

09/10/2009

meu verso
não é endoscopia
e diz o que há em mim
o que está e vem de dentro de mim

é a matéria da água
que escorre intangível por entre os cabelos
-caules e folhas do pensamento-

meu verso é

um pó da terra
pisada secularmente por hordas
de homens e suas histórias;
chama de um fogo
útil na cozinha
lúdico na fogueira
mortal-centelha
(se perto de gás)

meu verso também

todas as moléculas de um ar
é meu verso
todas as partículas que estão
no sofrimento do asmático
no ofegar do amante
no ultimato da vida

ei-lo
sendo tudo
sem nada ser

meu verso ser

fio de água
onda no mar crispada
todos os plânctons
todas as crenças
numa pia batismal
numa oferenda a iemanjá

o meu é verso

meu verso é já.
(MRCN)

02/10/2009

“Eu mesmo não sirvo”

Eu nunca prestei
Fui sempre um péssimo
Um dos mais ruins
Que por aqui já passaram
As jóias tombadas aos meus pés
Eu as pisava, chutava
E, quando não, desprezava-as
Se eram raras nem sequer as notava
Mesmo os diamantes mais puros
Conseguia destruí-los
E, se me arranhavam por dentro
Disfarçava a dor
Com olhares de soslaio
Ou encenações de contemplativo
Busquei por vezes amar,
Ajudar, dar o braço a torcer
E consegui. Algumas vezes só.
Mas prestar, não prestei.
Tenhamos dó!
O que é ser bom?
Para quem se é bom?
É bom o que deixa
A cada trecho da estrada
Um pedaço seu?
Porque a cada parada do caminho
Há quem peça uma parte nossa
Um pouco de carinho, de amor
Algo de esperança,uma segurança
Um olhar mais ou menos sensual...
E se essa distribuição é feita
Equitativamente
Aí é-se bom!
Como se presta então!
Mas eu?!

Eu nunca prestei.
(MRCN, 2007)

10/09/2009

É SENSATO FORÇAR A BARRA?

Vale a pena forçar a barra
da calça do pai
que é mão-de-vaca?
A barra da saia
da guria ensimesmada?

É sensato forçar o sol
quebrar a barra?
Forçar o barro
da casa que é de taipa?
Forçar um barro
pra se dar uma cagada?
Forçar uma bala
em meio à luta armada?
Forçar um berro
na escuridão danada?
Forçar um beijo
quando a língua está travada?
Forçar a borra
do café pra uma coada?

Não é necessário forçar nada:
Nem a brasa
pra queimar na madrugada
Nem a brisa
pra agasalhar a namorada
Nem um brinco
na orelha não furada

Forçar a barra
É barrar a força
que existe em nossa alma.
(MRCN,out/nov 2002)

26/07/2009

Poetas não dirigem motos
não dirigem carros
Vão de ônibus
Que é mais sensato

Nefelibatas
meditabundos
exegetas do que é mínimo
Importa-lhes menos a direção
que o desatino

Assim podem infringir
a lei comum, o sinal vermelho
E morrer uma morte sem poesia
mas com sangue, fotos
–que horror! -
mutilações e escárnios:
“Esse era doido!”

Tomai ônibus, poetas meus
Ali é-se dirigido
e eximido de culpas
E nossa loucura é –
mais uma vez –
Fundamental

Enquanto um sua
dirige, se estressa
com desaforos, desabafos
falsas promessas,
Ei-lo o poeta
brisa na cara
de tudo esquece
E se esquece

Espanta-se com o óbvio
apascenta-o o extraordinário:
o choro do cheira-cola
o frisson do fresco na fila
o muxoxo da mulher menstruada
tudo vira em suas mãos poesia
Mesmo o comezinho
branco, hetero, abastado
pode dar em alguns versinhos...

Ao poeta não é vetado
transformar o sensabor
em doce ou acre

Mas é mister não dirigir moto
caminhão ou carro.
(MRCN,out2002)

05/07/2009

Alícia e a cannabis sativa

“Sopra o tempo da angústia
É chegada a hora da tristeza”

Andava pelos campos cabisbaixa
Alícia, e seus poderes inescrutáveis

Falara já a flores e abelhinhas
Um rio já lhe murmurara a sina

Ninguém naquela vila, porém, acreditava
E Alícia com seus bichos ia e vinha

Os vilões abstêmios e seus narizes
Infensos ao olor que de longe se sentia

Jamais criam nas peripécias
Da viloa andrajosinha

( Ela, contudo, já conseguira falar a flores
E dialogar com uma operária abelhinha)

O fumo que cobria a floresta para além da vila
Surtia efeitos incríveis, milagres que o comum não via

Falar uma andrajosa a esquilos?
Contar os segredos de um rio?

“Nefastos devaneios são
De quem perdera o juízo”

Tomada por uma crise de abstinência
( Grande mal que a falta faz da ervinha),

Alícia chocou-se com uma pedra
Calou-se a poderosa voz da rainha

E agora não perambula nem provoca dos vilões o riso:
Mofa e pedra deixaram órfãos os animaizinhos

Calaram a sandia realeza

“Sopra o tempo da angústia
É chegada a era da tristeza”
(MRCN, ago2001)

29/06/2009

A formiga olhava o tapete
extenuada...

Quando chegarei do outro lado
com minhas irmãs?
conjeturava o inseto

Antes que a montanha de borracha,
sob os pés do menino,
esmagasse a pequenina

Amalgamando ocelos e sonhos,

linfa, desejos
e antenas
(28/11/07)

01/06/2009

Romance de 5 seg. numa estrada brasileira

Na Br
Passo correndo por ti
Minha velocidade espalha
teus cabelos Levanta
tua saia Confunde
meus pensamentos

E vou...
Comigo o olhar perdido
Num olhar espantado
Numa boca entreaberta
Num pulo no asfalto

Agora tudo em minha mente
Deriva de ti
Daquele instante
Em que minha carreta
Rasgou tua estrada
Amassando a bacia
( e a pedra de anil)
E fez levantarem voo
As roupas por ti lavadas

Eu baguncei teu serviço:
Tu atropelaste meu dia.
(27/05/02)

Um novo Dirceu

Vem, Marília, minha bela
corramos de tua madre
aí vem ela
Traz no cinturão bradado
o rancor dos que não foram amados
por trás das sebes
ao sol do meio-dia

Corre, Marília, espia
perto vem a grande senhora
cujo sexo só é tocado à noite
na digna hora
em que os amantes sequer se olham

Paremos, Marília, agora
a velha cansada senhora cansou
e não nos acompanha mais os passos
ofega, lembrando os calorosos abraços
bufa, com os suspiros que dávamos
à porta estreitados
com as juras que trocávamos
embaraçados, na saleta, a seu lado

Beijemo-nos, Marília, é a hora
Que ela nos olhe
e se redima
de um amor gasto de décadas
na nossa paixão febril de dias.
(27/05/02)

04/05/2009

Amor assim eu fui:
Corrido pelo peito de toda essa gente
Falado na língua trôpega
De bêbados
Calado na batina
De eclesiásticos
Cuspido que seja,
Pelos aparelhos ortodônticos,
De tímidas colegiais

...Mas era amor

E inevitável, inobstável
-Por assim dizer-
Pois que, incontinenti,
Eu subia por entre as pernas
Delas e deles
E me instalava com o frio
Na espinha, o embrulho
No estômago, o engasgo
Na garganta
E ia subindo, subindo
Até o seco na boca
E o luzir nos olhos

Assim eu fui amor.
15/04/09
Aun duele en mi pecho tu voz
Y ya no puedo escuchar otras más
Es que no se puede oir ningún sonido
Mientras tu voceo sigue conmigo

Intenté decifrar otras palabras
- A lo mejor, de amor –
Me habían dicho
Mas ya no se puede oir ningún sonido
Si tus palabras laten en mi nido.
(20/04/09)

24/03/2009

De cravo e canela



Foi numa terça-feira de carnaval
sem dinheiro e sem tesão
que lá pelas tantas páginas de um livro baiano
eu te espiei, junto com Nacib,
pela fresta da porta
Estavas linda, morena
e eu passeei pelas tuas coxas
com os olhos do árabe.

Foi numa tarde de carnaval
sem dinheiro e, por isso, sem tesão
que te vi soltar o passarinho sofrê
E entre a matiz das penas da ave
enxerguei, sob o amarelo da calçola,
tua periquita morena
Acocorada que estavas
com teu vestido de chita
como quem vai parir
E já está pronta pra novo coito...

Foi na tarde derradeira de carnaval
sem dinheiro, sem tesão
mas com o livro na outra mão
que eu te vi nas páginas do amado
rebolar tuas ancas na minha rola árabe:

Foi um carnaval sem dinheiro
mas com um livro cheio de tesão, então!
(MRCN, 15/03/09)
Lua bela
vista pela tênue teia
de um aracnídeo

sua luz embaça
o branco, agora leitoso,
daquele tecido

de onde meus olhos divisam
a beleza do plenilúnio...

Prata antes da prata,
a teia permanece depois da lua
mas é pela lua que clamo
não pela aranha.
(20/02/09)

21/03/2009

O míope e a hipermétrope (à guisa de Bilac)

-Cheguei,
-Chegaste.

-Vinhas fatigada...
-Tu que fatigado me vias.

-E aquele olhar cansado...
-Cego. Era só alegria,
pois que encontrara meus óculos.

-E os meus perdidos em outras vias.

-O teu olhar marejado,
-Tudo borrado, nada via.

-E estavas chorando? ou...
-Era só o suor, a canseira da faina.

-Ora, pois, esqueceste a agulha e a linha!
-Mas, se cá estão nas mãos minhas...

-Afasta mais à luz, ó, a agulha
-Aproxima-te mais, ó, dá-me cá a linha

-Uma vez mais errei, ora pois!
-Erraste mais uma vez, ora bah!
Pan y vino
Publicado no Recanto das Letras em 16/02/2009
Código do texto: T1442972

07/03/2009

Olha a telha
como está vermelha
é o sol
que está por cima dela
e ela
está por cima da gente

Vê a goteira
como é benfazeja
-porque não chove-
e ela bem que deixa
o sol passar por ela
e chegar aos nossos pés

Mira a telha
como ela é bela
com suas irmãs
tão bem dispostas
umas mais novas
outras mais velhas
e nós a admirá-las
daqui da cama

Repara o sol
como ele impera
crestando a telha
e a nós poupando
de sua longíqua centelha
língua de fogo
que, agalopado,
mais avermelha
uma, duas, três fileiras
todo o nosso telhado (marcelino,24.06)

As garças de plástico
que vi lá no mangue
me trazem lembranças
das praias de revistas
e me falam
dos caminhos dos litros de água sanitária
que os moleques buzinam
em suas vadiagens na areia

As garças
altivas aves de plástico
jazem ou vivem no topo dos galhos
dos mangues que há nesta São Luís

Cruzar a ponte
em ônibus veloz sobre o rio Anil
é ver garças de plástico
brancas, penduradas em galhos de mangue...
São garças,sim, são!
Mas de plástico e por dentro
o lixo dos pobres,
dos palafitados
dos mal-educados
dos apenas remediados
dos nunca assistidos
dos renegados e execrados
pela mão do grande deus social
que pinta de branco plástico (todo santo dia)
pontos do verde manguezal

Cruza-se a ponte, prestando atenção
a esses detalhes do pintor do ocaso,
e chega-se do outro lado do asfalto
onde há carros bacanas,
tristeza e lixo por todo lado

Mas essas garças não voarão
como suas parentas de penas
elas boiarão por todo lado
distribuindo doenças
como não se distribui renda por aqui

Quando a maré encher
elas se libertarão dos galhos
para alimentar de miséria e vermes
crustáceos, peixes e pobres.
(marcelino,25, 27.07)

** Sobre o rio Anil passa a ponte que liga o centro de São Luís a outros bairros da capital maranhense, dali avistam-se os manguezais "enfeitados" com sacos de lixos, em geral brancos.

02/03/2009

Num março de alegrias
Lembrei-me de um triste janeiro
Rosas brancas habitam
À roda das rosas vermelhas
Meu rosto cansado enxerga
Aquele rosto outro no espelho
E choro ao lembrar-me dos dias
Em que vivíamos no mesmo planeta
E choro e sofro e imagino o bom
Que seria estar
Ainda, aqui,
Com ele.

(março/2003)

A resposta do rio

Margem desbarrancada das minhas águas
líquidas verdes barrentas
que seguem sinuosas vias
ornadas por teus capins
fibrosos verdes brilhosos
a riscar meu leito
a encher de imagens
meu frio peito
de peixe de plânctons de seixos

Margem despudorada por sobre mim
a esquadrinhar meus líquidos passos
imaginando um destino pra mim.
Que pensas tu, margem avermelhada ?
meus filhos não te darei
meus sentimentos, trago-os bem fechados
na cama d’água
que é minha própria massa e constituição
Não verás pulsar meu peito
de peixe de plânctons de seixos
não escutarás o borbulhar
das vozes que em mim existem

Margem, mas oh, não me deixes
já querem tingir de azul o meu caminho
já sinto trincar em mim um sal
e esse só pode ser o marinho
daninho invasor impáfio arrogante

Por que te afastas tanto, margem minha ?
divisas o meu estrago, margem querida ?
e não podes, ainda assim, retardar o meu andar líquido ?

Estreita-me, margem amiga
abraça-me, margem tão linda
avermelha-me, por favor, margenzinha
margenzinha
margem minha
minha filha
minha, minha.... (jan/2002)

** Este texto, apesar da distância temporal, liga-se a outro já postado:Passaste rio.

Em Gaza

Em Gaza não há gozo:
só grito e homem morto.

Na faixa não se brinca
mas se pula, se abaixa,e se desvia
não de olhares apaixonados,
mas dos petardos.

Se veem estrelas?
não, fumaça e estalos
há muitos estrondos e estradas

mas fechadas

a quem interessa entrar ali?
só sair, de preferência vivo...

em Gaza quase não há vida
mas sagradas relíquias! (20/02/09)
Eu toco em teu botão
E desmaio
O contacto nos excita
E eu saio
E volto
Do e ao
Mundo da lua

Eu clico
O teu botão
E caio
No solo da lua
No fundo do mar
Da tua
Rosa de Sarom
Rosa de madre divina
E de mar de pérolas

No fundo da concha
Que agasalham tuas coxas
Eu toco o teclado
E resvalo
Nas areias que trazes
Nos teus areais infindos

Digito-os
E com meus dedos espalho
Bolhas e segredos
Nessa mata
De medos e agasalhos
Galhos e arvoredos

Teclo o teu botão
Meu rato
Rastreia a tua via
Tua vulva
Meus dígitos pulsam em teu coração

Teu botão
Minha mão:
Alta tensão.
(Marcelino)

19/02/2009



Sobre os nossos cornos rompe novo dia
estreitemos as mãos em franca companhia

A espécie humana agoniza lá embaixo
Faz frio eu sofro e me despenco em pedaços
Que voam ao encontro de outros irmãos
Repousados, bucólicos, nos colos de moças louçãs

Da montanha avisto o caos na enseada
São inocentes sei eu, não sabem de nada
Mais tarde chorarão ignorância tamanha
Se mais tarde couber na divina frase estranha

Raios tímidos aquecem nossas sombras
Que se desmoronam na poeira da prece-oferenda
Feita por ti na noite anterior
Em que o cometa petardo de deus
Soprou teu cabelo pequenino, tosado de índio
Índio extinto na geração de meu pai
Mas ficado nos livros que não leremos mais
à lama se destinam os saberes egrégios
Para que poemas barrocos ingleses?
Sonatas sonetos equações e certezas ?
Se tudo o que sobrou foi o nosso Verbo
nosso medo nossas queimaduras e esse gelo...
( Marcelino)

16/02/2009

Um papel de bombom
e um sonho de valsa
nós já norte-americanizados
sem desconfiar de nada

tantas caixas, envelopes
e garrafas
a sujar nossa estrada
e a nossa? nada!

sem marcas,
vestidos com a moda emprestada,
nem voz própria nos sobra
nem sonhos nem nada.
De vinho tinto
tanto eu fico
tonto e
pronto
pra te dar trabalho
na hora do amor
Porque me canso
e canto cento
e tantas desculpas
que "ele" brochou.

E com o vinho tinto
tonto tantos
desafios tento
enfrentar
E o vinho tinto
eu tendo
me absolvo e tenho
mais algumas horas
de estupor no ar.

O capoeira

Olho o mundo de cabeça pra baixo
numa meia-lua inteira eu me procuro
eu me acho
Rodopios eu dou
dar a volta ao mundo eu vou,
camaradinha
e o mundo, quantas voltas dará?
Vem um toque
tô em cima, tô embaixo
A mandinga da tesoura encaixo
e não preciso de licença
nem de permissão,
basta uma bênção.


Pés bem plantados no chão
depois levanto poeira
minha parada é obrigatória
meu aú enche o céu de estrelinhas miúdas
minha manha abre risos nos rostos

Não me derruba no chão
não suja minha calça, não.

Ouço outro toque:
"...que alumeia o mar..."
minha alma cresce
e o meu corpo
desce
É o pau é o arame é a cabaça
pra os meus olhos
se encherem de graça
e nesse ritmo eu permaneço

O tempo passa...

09/02/2009


Desce suave a situação
é noite, há amigos
está-se sentado e ouvem-se risos
O ouro no copo
brilha com os pensamentos mais atordoados
em todas aquelas mentes
Mas desce saborosa a emoção
e depois se instala em todos os juízos
que se desfazem e desmancham
como a fumaça que sobe...

É anil o céu, há luar e brisa
está-se sentado e ouvem-se mais risos
agora também palavras dissonantes
ao pé do ouvido
e o líquido ouro e gelo
amargo e doce amigo
pondo à prova todos os sentidos.
Em roda alargam-se os gritos
alteiam-se os tons, veem-se manifestos,beijos, mãos...

Fugiu a noite, levou a lua
a fumaça, os amigos
e ainda desce, mas travosa, a sensação
de que o ouro, agora em degelo
é esconderijo e abrigo
Mas não é não
é só um liquido engravatado
com seu colarinho
suado, como quem sai do trabalho
e vai encontrar conhecidos
Simples.
Passaste rio
Despedaçando minhas margens
Sem represas
Avançaste meu seio
Caudalosa e irreprimível
Invadiste meu leito
Meu peito
Minh’alma

Correnteza em mim cavada,
Sem outras forças,
Não te paro
Não te possuo
Nem te amparo
Mas, ainda assim,
-Enquanto passeias em mim-
Te abraço....
(2008)

31/01/2009

Espinhas despontam
vizinhas de cravos nítidos
a pele oleosa
ao toque escorregadia:

São adolescentes
com os cabelos em desalinho
mãos dadas na praça
lições mal-feitas nas bolsas

E o eterno festejar
não da vida
mas do instante
que eles não atinam
pra essa história de toda a vida

Mas vivem e se expõem
a toda sorte de contrariedades
essas aves agourentas
ávidas que estão a espioná-los
sedentas que babam
para pentear seus cabelos
alisá-los -
se forem de negros -
arrumar suas bolsas
providenciar camisinhas
espremer os cravos
e as espinhas

Secar suas peles
suas almas
sua rebeldia.
(MRCN,27/06/03)

22/01/2009

Minhas cinzas espalhadas

Minhas cinzas espalhadas pelo ar
vejo minha irmã
meu irmão
meu sobrinho
mas...
Eles estão sorrindo?!
de que será que estão sorrindo?
Tanto faz, já não me importa mais...
Agora pouso
na asa de uma borboleta
tudo tão maravilhoso
translúcido
luminoso!

Sou apenas um pó
e ela também não se importa mais
não lhe aborrece o antigo humano
viajando em suas asas
sem cpf, sem dinheiro
nem amor nem inimigos
nem casa.
Esta agora é a terra
e a Terra. Só.
(MRCN, 31/12/07)

11/01/2009

Variações sobre o tema do imperialismo norte-americano na fronteira com o Brasil II

A Coca
A Oca
Oca
A cola
O talho
O branco líquido
-O Chico-
O tiro
O peso
A prensa
O malote
O avião
O voo
A arara
-e o Sivam-
O assovio
O apito
A mansão
A favela
O grito
A coca
As ocas
A cola
O asfalto
O negro líquido
-A seringa-
É isso aí!
(MRCN,2000)

Alguns ovos são mais doloridos ou E se as galinhas abortassem?

Alguns ovos são mais doloridos
em que pese a beleza estampada
em pintados e bem-comportados ninhos
em que pese o romantismo avisceral
dos que os procuram em revistas, telas, poesias:
vermelhos, marrons,amarelos, brancos, limpos.

João Cabral fala de sua esférica ideal
poeta sobre a geometria do ovo,
como se fosse um galo inequívoco,
olha para o branco, a casca, o duro, o novo
mas não dá fé numa lágrima pequenina
cristalina lembrança nos olhos da galinha
de que aquela não fora experiência das mais bem-sucedidas...

Um ovo só é notório para os seus comensais
para um galo, pai seu discutível,
ou para algum pinto saudoso de proteção,

para a mísera, mesquinha galinha, não!

Um ovo é um parto e um estupro
sai o branco do quente escuro?
claro, o puro não sai puro
mas fétido, lacrimoso, destrutível, imundo
rasgando o desejo da galinha:
continuar viva, útil, produtiva.

Essas galinhas poderiam insurgir-se
ficar indignadas, putas da vida
putas galinhas, galinhas, putas, mesquinhas
a chorar suas dores, suas dilatações porque
cada ovo é menos um
cada parto é menos um dia
cada estupro é menos uma vida
dessa mísera, frágil, franzina.

Estreitada a um canto do quintal
Ei-la lamentando sua sina
ao olhar seu galo empavonado
crista alta, egocêntrico,

qual poeta que conhece tudo
sem nada sentir.
(MRCN,2003)
* João Cabral -referência ao poeta modernista (geração de 45) João Cabral de Melo Neto, autor de Morte e vida severina e O cão sem plumas, excelentes textos que devem ser digeridos por todos os amantes da boa literatura.

09/01/2009

Eu, astronauta II


Perdido
Choro
O tudo e
O mais nada
Olho

Meu capitão!
Lá - a nave
Perdão
Estou, agora,


A tripulação
Um cabo
O susto
Um só

As lágrimas
Minha lágrima
A surdez
O silêncio
Olho só

Meus parentes
Minha gente
Os amores
Agora...
A dor

XI


Pedaços de carne
caem em flocos de neve
na consciência do homem

Um odor infernal
pútrido, sobe
saliniza o pensamento
do mundo no centro

Há dores, ma há partos
e um ai -
bem mais profundo -
atesta
que a esperança ainda resta

como algo que só está
porque pensamos
que somos mais
do que realmente
somos.
(MRCN, 24.06.03)

03/01/2009

Eu, astronauta


No frio da cabine inóspita
em que me puseram
cabisbaixo penso no futuro
incerto da minha raça
da minha terra

azul difuso no pensamento,
ei-la em meu visor
na minha íris, no meu peito
de astronauta doido

viajante das estrelas,
Quero me libertar
e esse breu me circula
mais me entranha
mas me excita

o branco me irrita
o plástico, a pílula
e o comprimido
tudo me oprime
Enxergar?!
tremo por lembrar de ti

hóspede triste
numa cidadezinha
periférica
viela
tapera
ínfima partícula na poeira desta poesia

Dou a volta nesse mundo
Sempre volto pra ti.
(MRCN, 2001)

01/01/2009



Horda de cupins, ó exército estadunidense
sobre as areias brancas das páginas dos meus livros
velhos como o Velho continente
como o velho Golfo Pérsico
cheios de um petróleo
que é o saber e a cultura envelhecida
dormindo nas profundezas da capa dura
dos meus livros.

Eu os queria cupins exegetas, perspicazes cupins
que devorassem antropofagicamente
a cabeça dos homens escritores
cupins modernistas e tropicalistas para devolver com outro
o saber deglutido
Mas não, só dejetos e egoísmo deles vêm.

Não raro brancos como os da Força do Bem
bolem-se iracundos contra fileiras e colunas
de frágeis letrinhas pretas vestidas em suas burcas seculares.

Cupins, ó varguarda do exército da Microsoft
da Grande Maçã
aí vão eles destruindo a cultura do papel
do manuscrito, de Gutemberg, de séculos e séculos
Querendo nos incutir que o moderno
o correto, o mais certo, o único
é o disquete, o pendrive
o e-mail e a Internet
e o poder que lhes cai às garras
e às bocarras de miserandos cupins.
( MRCN, junho,2003)

06/12/2008

Como pegar caranguejo sem perder o dedo

Mão enterrando na lama Ploft
Cava mais fundo, sofre
Ali esbarra no sólido Toc
O dedo alisa o bicho se move
A mão tenta um movimento Sflot
O medo medra e o suor...escorre
Flexionam-se os dedos Troc Troc
De repente um olho-torto se bole
Poder-se-ía esmurrá-lo: Soc Soc
Mas lama até o joelho é dose
E os olhos-tortos se danam a correr Szoop Szoop
Epa! ficou um enganchado lá, vai ser mole:
Basta calçarem-se as luvas e Pof
Abafar o bicho na panela. Tomar um gole.
( MRCN, 1998)


Num mundo de gritos
escuto ais que estouram meus tímpanos
Os sons se confundem
são tantos que ampliam o infinito

Gritam formigas e gastrópodes
choram joaninhas e borboletas
urram celenterados e besouros
Toda hora sem cessar
me sobem esses sons

Por que ninguém os ouve?
só eu me torturo?

O petroleiro que afundou no Atlântico
e estraçalhou um coral
fez aflorarem bolhas e berros
profundos gemidos
dos seres marinhos
e ninguém nisso deu fé,
Mas eu, sim,
e sofri.

Como no tempo em que os jatos cortaram o ar
e desviaram a rota do passarinho
que se espatifou na parede!
A penugem juntou-se aos destroços...

Mas só se chorou a morte de milhares de pessoas
não a de trilhões de periplanetas americanas
não a de milhões de roedores novaiorquinos
devidamente esmagados pelas "forças inimigas"

Os guinchos, berros sofridos
foram sufocados numa tristeza ocidental:
Só os homens importam,
bípedes que matam bilhões...
(MRCN, 19,20/11/2003)

Suicida

Eis que caio
e se caio, saio
desta para melhor
Por que haveria de chorar?
se os poucos segundos não me bastam
para que outros olhem e se comovam
com uma lágrima rolada
antes que se esmaguem meus miolos
entre a caixa craniana
e o cimento da calçada,
lá a uns trinta metros deste parapeito em que me inclino.

Eis que me jogo
e se me jogo, logo
todos voltarão a cabeça para o alto
e lembrarão de Deus
e deste pecador
que voa com braços de boneco mamulengo
qual o pássaro bêbado da Construção
em direção ao solo.

Eis que me atiro
e se me atiro, viro
uma coisa estúpida no ar
que se escancara no espaço
querendo alcançar o silêncio
posterior ao zumbido de sibilante vento
em queda-livre
nos meus ouvidos
posterior aos brados de não de nossa
de Jesus de meu Deus de até-logo
de seu corno de sua puta
de meu-filho-não-vai...

buscando o silêncio o silêncio o silêncio
o último som não hei de escutar:
tum!
( MRCN,2008 )
* Construção, com inicial maiúscula por se tratar de alusão (e homenagem) ao texto de Chico Buarque de Holanda.

Uma greve de operários, uma crise familiar

Na delegacia
Quando ela corre para me abraçar
E passa as mãos no cabelo
Eu sinto em seu olhar um apelo
Um pedido pra alguém lhe salvar

É um passo miúdo
Passo de pobre, eu sei
Mas como doem em mim
o estalar dos seus dedos
o piscar dos seus olhos
seus pensamentos longíquos
na panela, vazia, sobre o fogão

E doem mais ainda em mim
meu refletir sobre a causa da greve
meu acreditar em que estou certo
meu concluir de que é isso mesmo
que estou certo
que estava certo
que sempre estive certo
que a certeza,
no final das contas,

tremula às lágrimas de Maria.

( MRCN, 1994)

03/12/2008

Galiléia


Meu Jesus de olhos lassos
Deixai-me acertar contigo os passos
quero aprender a caminhar sobre o mar

Quero andar sobre as ondas
e -perdoa- fazer inveja aos surfistas
Alisarei a pele da água
com a planta dos pés que me deste

Jesus bom, de olhos vivos
vou sair de mãos dadas contigo
e na vertical flutuar
( pulando as marolas do mar)

Não subirei na canoa
porque tenho, na minha, a mão do Cordeiro
tenho o sal de espuma entre os dedos
e, sob a sola dos pés, a veste de escamas marinhas

Jesus, no cinema dilacerado,
vou repintar teu corpo, meu Amado
vamos dançar sobre o mar?

Não me espantarão barbatanas
nem os esguinchos das baleias
mas desviarei dos delfins e de suas piruetas

Jesus, sob os olhos da computação gráfica,
tu me dizes a fórmula mágica?
vens comigo para o mar?

Vens, barbudo e moreno, e com feição distinta da que vi
(na copa lá de casa)
-dizem que mais reais e próximas do possível...

Tudo bem, vem
vamos passar da arrebentação,
De qualquer forma:
a lua rebrilha na prata do mar que pisamos...
( MRCN, 2004)