E eras tu quem não me deixava falar; e eras, sim, tu a voz primeira a me fazer calar. E agora pedes – por que não dizê-lo – implora por minha voz em teu leito derradeiro. Fica, pois, como resposta com este talvez insuportável email.
Soube já de tua última sessão de quimioterapia, chorei um pouco. Teu filho me enviou um torpedo pelo celular, não tive dedos para respondê-lo: minhas mãos estavam ocupadas, tentando calar meu desespero. Reprimi-o. Refiz-me. Preparei meu discurso. Ei-lo.
Tua vida não foi curta; meu amor, sim. Insuficiente. Muito pouco o meu amor, beirando a anemia, a covardia. A ponto de não me permitir a última visita a quem me deu – confesso – alguns felizes momentos. Se calava era por me fazer bem o silenciar à tua escuta. Mas... tanto silenciar produziu efeito colateral devastador em minhas células coronárias. Adoeci. A causa? Tua indiferença, teu silêncio. Telefonemas, emails, MSN, comentário em perfil: nada, nada recebi de ti. Sequer um fuxico envolvendo nosso nome, uma fofoca a dizer que estavas rindo às custa de minha desdita. Até isso me satisfaria, mas nada! Nem isso me veio de ti. E olha que estive, como tu agora, à beira da morte.
Acompanhei à distância o desenrolar de tua doença. Entrei em alguma igreja. Rezei por ti (sempre o silêncio de que tanto gostavas). Sofri com tua recusa seguida de tua derrota. Tu me abandonaste. E por que me queres perto de ti, nesse momento tão triste?
Não, não irei. Não terás mais força na voz pra me silenciar... E eu chorarei, então. Não, isso não. Meu choro pode acelerar o cerrar de teus duros olhos. Não quero essa carga para mim. Minhas lágrimas poderiam fazer as vezes de vozes silenciosas e teus sensibilíssimos ouvidos não as suportariam por muito tempo. Não quero tal carga para mim. Fica, pois, com este email. Que teu menino o leia e não minta uma só palavra aqui escrita, tampouco traia minha sintaxe e estilística.
Meu amor pode ter sido pouco, mas não deixou de sê-lo.
(MRCN)
2 comentários:
Todas as essas palavras do seu texto já foram usadas infinitamente, mas a poesia da sua obra fez algo delicadamente novo, sensível e intenso.
PARABÉNS
Quando se aproxima a hora derradeira, por chão cai a vestimenta, do orgulho que a muito me vesti,enganando a mim mesma, fiz de conta que te esqueci. Nesta hora cai a máscara,a verdade nua aparece,nossos momentos foram os únicos, de verdadeiro amor que vivi.
Desculpa grande poeta, mas senti uma necessidade incrível de responder, sei que é ficção, mas tudo o que um poeta escreve, ou viveu ou está dentro do seu espírito enraizado,talvez por experiência de longínquo passado de uma vida esquecida nas dobras dos séculos.
Email, triste,mostrando a dor de um amor mal vivido e principalmente incompreendido. Beijos Luconi
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