25/06/2011

Leitura analítica de "O cão sem plumas", de João Cabral de Melo Neto

Em volume intitulado Duas águas, João Cabral de Melo Neto agrupa, na primeira água, os livros Pedra do Sono, O Engenheiro, Psicologia da Composição, O Cão sem Plumas (que aqui nos interessa mais de perto), Uma Faca só Lâmina e Paisagens com Figuras e, na segunda água, Os Três Mal-Amados, O Rio, Morte e Vida Severina, e - posteriormente incluído - o Auto do Frade. O poeta pernambucano alerta quanto ao porquê dessa divisão em nota no volume de 1956:

Duas águas querem corresponder a duas intenções do autor e — decorrentemente — a duas maneiras de apreensão por parte do leitor ou ouvinte: de um lado, poemas para serem lidos em silêncio, numa comunicação a dois, poemas cujo aproveitamento temático, quase sempre concentrado, exigem mais do que leitura, releitura; do outro, poemas para auditório, numa comunicação múltipla, poemas que, menos que lidos, podem ser ouvidos
                                                                                 (MELO NETO, apud NUNES, 1974:74).

Ou seja, o escritor aponta para dois tipos de dicção, para duas possibilidades poéticas que se distinguem, na poesia, em função do destinatário e da modalidade de consumo do texto (NUNES, 1974: 74). O escritor comporia os poemas da "primeira água", enfatizando a construção do texto (daí o sugestivo título Psicologia da Composição), a expressão, com originalidade e individualidade, conforme a práxis moderna. A combinação, quase sempre insólita, de palavras de diferentes campos semânticos (Cão/ Plumas) exige a atenção do leitor, tirando-o do torpor, da alienação, do “deslumbramento” provocado por uma poesia de corte mais tradicional. Neste ponto do nosso Modernismo, a Geração de 1945 pede um leitor averso à evasão, tão cara a árcades, românticos, e simbolistas.

A exemplo disso, no poema O Cão sem Plumas, o rio e o homem se confundem num movimento comum, que fica poeticamente traduzido na imagem da natureza desplumada, sem adornos, sem enfeite. Ao leitor é apresentado e, com o leitor, é construído um Capibaribe do hoje, não o do ontem, tampouco do amanhã. O poema compõe-se de quatro momentos ("Paisagem do Capibaribe", I e II; "Fábula do Capibaribe", III e "Discurso do Capibaribe" IV). A cada passagem, o leitor é instado a refletir sobre o poema, sua matéria e sua linguagem; é importante compreender cada imagem evocada nos versos cabralinos.

"A cidade é passada pelo rio/como uma rua é passada por um cachorro;/uma fruta por uma espada."

As duas primeiras partes do poema, "Paisagem", descrevem o rio e sua relação com a cidade, não por acaso há o uso constante de verbos indicativos de essência/estado; já na estrofe que abre o texto, por exemplo, aparecem as duas composições que percorrerão todo o poema, sintetizando-o: rio/cachorro, rio/espada: o rio tem vida (cão), não a pomposa, embelezada ("Nada sabia da chuva azul, da fonte cor-de-rosa"), mas a comum, crua ("Sabia dos caranguejos de lodo e ferrugem"), por isso ele fere (espada). Fere principalmente o leitor acostumado a descrições saudosistas e embevecidas da natureza feitas pelos autores de traço mais romântico.

A proporcionalidade entre os elementos da comparação inicial (cidade/rua, rio/cachorro: um cachorro cruza uma rua, um rio cruza uma cidade) corrobora para o inusitado da última comparação (cidade/fruta, rio/espada: partir uma fruta com uma espada não é algo comum). O inusitado pertence à esfera da poética modernista de João Cabral de Melo Neto.

Na primeira "Paisagem", o elemento homem ainda não está totalmente integrado à descrição do rio; as indagações fecham essa primeira parte como a dizer que estas seriam respondidas na continuidade do poema: "Por que parecia aquela uma água madura?/ Por que sobre ela, sempre, como que iam pousar moscas?/ Aquele rio saltou alegre em alguma parte?"

A pergunta já quer imprimir uma resposta: aquele rio de água quase parada (velha, gasta) pelo qual não sobrevoam coloridas borboletas, mas desconcertantes moscas, é figura mais de tristeza que de alegria.

A segunda "Paisagem" nos apresenta o elemento humano mais conectado ao rio; nessa parte, a vida do homem, da cidade e do rio se amalgamam:

"Como o rio/ aqueles homens são /como cães sem plumas (...)O rio sabia /daqueles homens sem plumas.(...)Porque é na água do rio /que eles se perdem "

Nessa parte do poema, aparece o cotidiano da cidade, a pachorra da vida provinciana, o comércio: elementos que compõem o entorno, o cenário do rio; a descrição, pois, ainda impera, basta que atentemos para o fato de que os verbos empregados, em sua maioria, não denotam ações modificadoras de objetos (ser, saber, perder-se...)

Na terceira parte do poema, "Fábula", temos aquilo que está explicitado no título: a história do Capibaribe. Aqui há a narração, os fatos, o enredo; os verbos neste ponto denotam ação, no sentido estrito da palavra.

"A cidade é fecundada/ por aquela espada (...)No extremo do rio/ o mar se estendia, (...)O rio teme aquele mar (...)Primeiro,/o mar devolve o rio. (...)Junta-se o rio/ a outros rios/numa laguna, em pântanos/onde, fria, a vida ferve. (...)Juntos,/todos os rios/preparam sua luta/ Depois,/o mar invade o rio."

A "Fábula" apresenta ao leitor elementos que compõem a vida do rio Capibaribe, entre os quais figura como principal personagem o mar (estende-se, põe medo, devolve, invade...). Não há como contar a história do rio sem fazer referência ao mar. Nesse trajeto do rio para o mar, ainda há espaço para falar do homem, elemento caro à poética cabralina.

Na última parte do poema, "Discurso do Capibaribe", o eu-poético está em seu elemento: o discurso é a linguagem, a dicção, a fala ( "Aquele rio/está na memória/como um cão vivo"); homem e rio têm voz, têm algo a dizer de sua história comum, uma história sem plumas, sem ornamentação, porque sobre ela o autor não passa verniz, ao contrário, desmascara, denuncia; esse é, aliás, um outro aspecto da poesia de João Cabral de Melo Neto: o componente social, aqui perfeitamente explícito nos versos:

"Como todo o real/ é espesso/.Aquele rio/é espesso e real.(...)Espesso/como uma maçã é espessa./Como uma maçã é muito mais espessa/se um homem a come/do que se um homem a vê/Como é ainda mais espessa/ se a fome a come./Como é ainda muito mais espessa/se não a pode comer/a fome que a vê."

Nesses versos retornam os elementos já anteriormente elencados para compor a paisagem e a fábula do Capibaribe (a fruta e o homem). O último verso é de uma força poética magistral, na medida que, por intermédio da comparação, estabelece a ponte entre o regional (o rio Capibaribe) e o universal (a impotência do homem frente a fome, o desejo obstado). A universalização do regional é outro ponto de contato entre os autores da geração de 1945.

A caracterização do rio como algo que fere (espada) já apresentada ao leitor na primeira parte do poema, "Paisagem", reaparece no "Discurso": "é agudo.(...) O que vive fere." O "Discurso" irá agrupar todos os elementos presentes nas três primeiras partes do poema (Paisagem e Fábula), afinal é pela via da linguagem que o homem descreve e narra, isto é, o autor deixa para a última parte do poema a condensação do que seja esse cão sem plumas, esse rio sem fantasia, esse homem sem romantismo.

                                                                                                             Marcelino Cutrim



REFERÊNCIAS

NUNES, Benedito. João Cabral de Melo Neto. Petrópolis, Vozes, 1974.

PINTO, Maria Isaura Rodrigues. Rio/homem: Cursos e discursos na poesia de João Cabral

5 comentários:

Cris de Souza disse...

valeu essa aula de literatura.

abraço, meu caro!

Curtt disse...

Pan y Vino:

Conte-me mais, se possível e permitido pelo tempo, sobre a terceira parte do conto. O termo fábula me faz pensar em elementos que não consegui divisar com clareza nesse trecho. As estrofes finais me incomodam. Me fazem pensar em "Tecendo a manhã", mas sei que algo - ou melhor - muito me escapa. E isso explica o meu pedido.

ABRAÇOS.

LUCONI disse...

Meu amigo, você analisou o poema de forma incrível, realmente eu não sou capaz, leio e procuro sentir apenas na alma, muito bom beijos Luconi

Marcelino disse...

III. Fábula do Capibaribe
A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.
(...)
O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta
(...)
Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.
(...)
Junta-se o rio
a outros rios.
Juntos,
todos os rios
preparam sua luta
de água parada,
sua luta
de fruta parada.
Esses são alguns trechos desse soberbo poema de João Cabral de Melo Neto. O termo fábula, na minha concepção, vem empregado no sentido de história, é a história do rio Capibaribe que o poeta pernambucano tenciona contar em forma de versos: o rio passando pela cidade, juntando-se a outros rios no mangue e desaguando no mar; seria só isso, mas isso é muito pouco para a verve literária de João Cabral, aí ele faz poesia, e vai entremeando sua narrativa poética com imagens belíssimas, veja só a lembrança do mendigo que teme entrar na igreja, a comunhão dos rios no mangue, a diferença da dinâmica da água no rio (parada) e no mar (em constante movimento). Por mais que algum leitor ache discrepantes algumas comparações utilizadas pelo poeta (rio=fruta, rio=ave, rio=espada) , todas são muito plausíveis e acertadas, basta ter em mente que, para o poeta, o rio representa a vida real, com toda sua beleza (fruta, bandeira, flores...) e suas agruras (espada, cão sem plumas, lama...). O rio alimenta ("A cidade é fecundada") e liberta, na medida que ensina o homem a lutar("como uma ave /que vai cada segundo/ conquistando seu voo")

Curtt disse...

MARCELINO:

Minhas referências, você já deve ter percebido, são mais gramaticais que literárias. Por isso o meu pedido e, agora, meu agradecimento.

ABRAÇOS.