Um pouco mais de vinho, ó velho!
Antes que o Abrigo se feche
As meretrizes lá se foram...
Por trás do abrigo,
à penumbra benquista,
a última diamba se queima
Os carros perambulam como seus donos
atrás de "coisinhas interessantes"
Mais um quarto de vinho, velho
Mas, qual!
Nada mais há que se esperar
além do olhar indignado
dos honestos trabalhadores
que madrugaram para a labuta
e por ali agora passam
a desdenhar dos ébrios do Abrigo da João Lisboa:
Um que fala para o nada,
outro que equilibra o sono no ar,
um terceiro que pragueja contra todos...
Os garotos de programa, a essa altura,
maculam o sono de seus lares
com o gás carbônico do ar do Abrigo;
os travestis já se desfizeram
de cílios e saltos
E os bêbados, eles e o velho
continuam por cá comigo
numa heresia grupal defronte a Igreja do Carmo
Mendigos sonham em silêncio
larápios contabilizam seus ganhos
vigias sonolentos esperam
o infame do próximo posto
E o vinho tingido, gelado, açucarado e vagabundo
ainda chispa lume em meus olhos
que nada podem contra a sede desse pecado
que só na cidade, deste lado,
tem o sabor estragado
das cinzas manifestas de um certo Baco
na Atenas do Ocaso.
( MRCN, julho,2001)
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Ainda comemorando os 399 anos de São Luís,
a Atenas brasileira, um poema baseado na vida noturna
de uma das praças mais importantes da capital maranhense,
a Praça João Lisboa e o Abrigo do Largo do Carmo
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