22/10/2011

A Coruja

      Se assemelha a uma coruja, a velha na sala sentada. O nariz adunco, a pele bem clara, o cenho cerrado. Nos olhos o lume é borrado, e a velha já nem fala mais. Possível que pie, escondida de nós; possível que voe, enquanto a olhamos, parada na sala. Na poltrona está estanque, há bem mais de um ano. Parece uma pedra, a velha dura. Uma pedra impossível no meio da sala, uma pedra de Drummond, ou mesmo sua flor esquálida, brotada do nada, no meio de nosso dia (e de nossas noites...).
     Mas para voar - e com aquele nariz... - há que ser coruja! A boca abreviada, um traço curto, quase desenho de menino; os olhos cavados no rosto, o rosto curto. E há pêlos na orelha, meu Deus! Mais: aposto, quando eu passar para o quarto, ela dará uma volta completa na cabeça, igual à Regan do filme O Exorcista. Igual a uma coruja. Mas sem dramas e terrores, que ela é do bem. Apenas calada. Cansou da existência... e da voz.
     135 anos, 134 de verbo. Primeiro, balbuciando, bodejando, chamando o pai e a mãe, fazendo-lhes pirraça; logo as perguntas tremidas para a professora; e então as confissões de amor, as declarações, as confidências, as chatices de adolescente.
     Disse o sim para o padre - já o havia dito para o vovô, por trás de uma Imburana-de-cambão, numa dessas tardes abrasadas, no sertão do Ceará. Deu bênção aos filhos- 16 crianças, ralhou, admoestou, praguejou, amaldiçoou quem quis sair de sob sua saia, de sob suas asas; pediu perdão, corada; chorou, fez intriga com as noras, zangou-se com os netos; brincou com os bisnetos, contou-lhes histórias, mentiras escabrosas.
    Despediu-se do vovô, depois chorou a morte de mais nove de suas crias; rezou, conversou com a visagem da mãe (morta há mais de quarenta anos),caducou, caducou; deu boa-noite a Cid Moreira, chamou José Sarney de honorável bandido, desejou final feliz pra Nívea Maria. Como falou a tal coruja. Como piapiou!
     Agora só pensa, devaneia a velha. Mas em seus voos abissais, em seus mergulhos estratosféricos, ela recobra o tempo, sobressai-se a nós, meros mortais. Uma coruja com gestos aquilinos, uma deusa em carcaça na sala: uma velha (c)alada.

3 comentários:

Ana Lucia Franco disse...

cruzes, Marcelino, vi a velha na minha frente! bj

Lou Vilela disse...

A sapiência das corujas inquieta. ;)

Um abraço,
Lou

laerth motta disse...

que coisa boa este blog astro nave do saber grande abraço ...